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E o circo chegou...

Fui a um festival de circo...
 Claro que como era um festival não  tinha a magia da lona, dos baleiros vendendo balas e refrigerantes ou daquele homem com uma máquina fotográfica que tirava nosso retrato no começo da função e aparecia no intervalo com um slide montado numa coisinha de plástico com uma lente, por onde a gente olhava contra a luz e via a nossa cara de besta assistindo  ao espetáculo.
 Mais era um festival, excelentes artistas   e me transportou à infância em cidades do interior onde o circo exercia um  importante papel na nossa formação humana.
 Realmente, tenho muita pena da criançada de hoje com seus computadores, internet e jogos eletrônicos, mas que não se cagaram de medo com os urros do leão, se extasiaram com o vôo dos trapezistas ou choraram  com as tragédias e dramas levadas em palcos de circo mambembes, esses sim, os responsáveis pela primeira visão de teatro que as platéias do interior tinham.
 Passei a infância em uma cidade pequena onde a grande diversão era a chegada periódica dos circos.
Começava  o suspense com a entrada da caravana em um desfile  pela rua, com os carros das jaulas, os artistas em seus trailers, os caminhões com a tralha, já dando uma visão do que iríamos ver...
 A limpeza do terreno e a armação da lona eram um espetáculo pra meninada que matava aulas para assistir e morrer de inveja dos peões que marretavam duro  e se esfalfavam pra armarem o poleiro e os esteios da lona, sofriam, mas eram do circo... Depois de montado e embandeirado, o circo mostrava-se em toda sua plenitude como o mundo mágico que era.
À noite, as luzes de entrada, o barulho do gerador (a cidade só tinha luz por algumas horas)  o alto falante tocando Para Vigo me Voy ou  Guantanamera e uma voz com um sotaque espanholado eram um sucesso. Era um Brasil ingênuo e feliz, tão bem mostrado por Cacá Diegues com a sua Caravana Rolidei, e que hoje nos faz tanta falta.
Depois, circulavam as histórias:  todo mundo tinha que tomar cuidado com os gatos e os cachorros porque o pessoal do circo os pegava pra dar comida aos leões, que uma moça local  se apaixonou por um trapezista ou acrobata e queria seguir com o circo, que o palhaço era um criminoso que estava no circo se escondendo da policia etc, etc, etc. Nunca apareciam os autores dessas historias porém,  por via das dúvidas, cães e gatos eram religiosamente vigiados e as casadoiras locais eram igualmente passadas pelo crivo pra  ver se a gente descobria quem queria fugir. Tudo isso   . fazia parte da magia, e quebrava realmente toda a rotina da cidade, o que tornava o circo ainda mais mágico.
Outra importante tarefa, esta destinada à  molecada,  era o acompanhamento ao palhaço pelas ruas  quando à pergunta:
- palhaço o que é,
provocava a resposta em coro:
-É ladrão de mulher
-Hoje tem espetáculo?
-Tem sim senhor!
As oito horas da noite?
-Tem sim senhor
Hoje tem marmelada?
-Tem sim senhor
-Então arrocha negada!
 E o coro:- Heeee.
Aquilo causava uma inveja aos meninos ditos de família, principalmente quando se sabia que o palhaço marcava com um sinal de cinza todo mundo que o acompanhava pelas ruas e esse pessoal podia entrar de graça  na função da noite...
E que função. A gente ia de roupa marinheira (nunca entendi porque vestiam a gente de marinheiro se a cidade era longe pra burro do mar) e ficava besta com as acrobacias, os trapezista e os domadores na primeira parte do espetáculo.
 Depois era uma choradeira só, com o Ébrio ou o Conde de Monte Cristo, no que a gente chamava triato, na segunda e última parte.
Quando o circo ia embora, a gente ficava andando pelo local onde foi armado pra ver se encontrava alguma preciosidade perdida pelos artistas porque tinha um importante valor pra trocas, e batia um banzo geral na cidade até a chegada do próximo,  quando começava tudo outra vez.
Não sei, era uma infância sem maiores progressos tecnológicos, mas feliz pra chuchu...
ZéCarlos
Enviado por ZéCarlos em 11/11/2005
Reeditado em 15/11/2005
Código do texto: T70050
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Sobre o autor
ZéCarlos
Cabedelo - Paraíba - Brasil
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