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A Caleidoscópica Jornada de uma Máquina de Lavar

As gralhas contavam os minutos. Os motoristas resmungavam. A hora era a de contar a história. Dizia-se de uma máquina de lavar que resolvera viajar o mundo. Saiu, assim mesmo, desembestada, pela rua. Olhou para um lado e para o outro, perdida. Para onde deveria a máquina de lavar ir? Escolheu o caminho da direita, o que nem sempre é direito. Foi que a máquina de lavar teve que parar, diante de um pedágio. Um rapaz de testa franzida e óculos fundo-de-garrafa estendeu a mão, na esperança que a máquina de lavar pagasse o pedágio. A ignorante não cedeu a tais convenções. Arrebentou a cancela e saiu pelo mundo. Loucura. Mal sabia para onde ia.
A bruxa acompanhava o caminho da máquina de lavar por meio de seu caldeirão. A imagem era transmitida diretamente para a sopa dentro dele, numa resolução razoável, melhor que uma fita VHS, mas que não chegava a um DVD. Mas que dava para ver aquele eletrodoméstico desembestado vagando pelo mundo, isso dava. A bruxa viu que era a oportunidade de rir como uma bruxa e riu. Riu aquela risada estridente e clichê ao extremo. Depois, voltou para a sala de estar, onde comia deliciosas asas de morcego. Da janela, um jovem morcego observava o sadismo da velha, que devorava asas de seus irmãos sem dó. Aquilo tinha que acabar. Abriu a janela de leve e voou para dentro. Pôs-se de cabeça para baixo bem acima da bruxa. Essa riu de novo, dessa vez sem nenhum motivo aparente. Foi então que o morcego se soltou de onde se segurava e começou a cair. Nessa hora fatídica, veio-lhe a imagem de um cavalo. Esse cavalo não havia nascido naquela região; havia sido trazido por um prestativo prestador de serviços rurais, chamado Estevão Linhares, da Estevão Linhares Prestação de Serviços. Tudo o que tinha que fazer era transportar aquele cavalo de uma fazenda no norte do país até uma fazenda no extremo sul. Foram dez dias de viagem de caminhonete. Durante uma delas, Estevão Linhares não resistiu aos encantos de seu companheiro de viagem e os dois embarcaram numa viagem mais louca ainda, dividindo uma intimidade que deixaria qualquer um de cabelos em pé. Quando Estevão Linhares teve que deixar o cavalo em seu destino, uma lágrima rolou pelo rosto dele. No dia seguinte, já havia se esquecido de tudo. Mas o cavalo, não. O cavalo só pensava em Estevão dia e noite. Evitava qualquer contato humano. Um dia, viu uma pêra. Muitos anos antes, outra pêra era consumida por um rico engenheiro, que se fartava de comer um frango gorduroso em sua luxuosa sala de jantar. Tinha de tudo de sobra. Orgulhava-se da família, símbolo da elite. A esposa era uma das mais celebradas socialites daquela região. A filha se fazia de virgem enquanto era celebrada nas senzalas. E o filho era tido como machão, mas sentia atração sexual por objetos da casa. Já tivera o coração partido pelo sofá e pelas cadeiras da mesa de jantar. Parecia que todos faziam pouco dele que, derrotado, andava pela casa buscando um novo amor. Naquele século existia pouquíssima tecnologia. Foi por isso que o tal filho machão se surpreendeu ao ver uma máquina de lavar desembestada correndo pela estrada de barro. Foi amor à primeira vista. Primeiro, a máquina de lavar fingiu não saber onde estava. O rapaz também tentou bancar o difícil, mas depois se lembrou de que a vida é curta e que não se pode dar trela a essas frescuras. Consumaram a paixão ali mesmo. O cavalo apareceu num determinado momento, e assistiu a toda aquela sessão de amor.
Ricardo Prado
Enviado por Ricardo Prado em 19/10/2007
Código do texto: T701021

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Sobre o autor
Ricardo Prado
Santos - São Paulo - Brasil, 29 anos
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Ricardo Prado