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A mulher feia


Éramos oito no grupo de estudo. Marina sentava-se atrás de todo mundo, sabia que os velhos colegas de infância ali presentes a achavam feia, eu inclusive. Crescera e chegara aos vinte de idade morando na mesma rua, como nós, e tinha sido quase uma reclusa, sem participar muito de nossas brincadeiras durante a infância, e sem sair com as outras colegas na adolescência e nesse começo de juventude. Se entre os 16 e os vinte teve algum namorado, ninguém soube. 

Quando formamos um grupo anarquista, que não durou duas reuniões, tomou coragem e disse que queria juntar-se àquele bando de empolgados, que já começavam mal pelos critérios de seleção para admitir novos membros. Anarquista-revolucionário, Chicão explicava mais ou menos assim por que aceitara cada de um de nós: eu, porque meu apelido era Diabo; Lepera, porque tinha cara de mau; Helinho, porque matava gatos em criança com um sorriso nos lábios; ele mesmo, Chicão, porque era o tal; outros por isto ou por aquilo; e Marina, porque era feia. Não sei com quem Chicão aprendeu o anarquismo, mas só pode ter sido com um inimigo da causa. 

Nessa primeira reunião, por insuficiência de material de estudo — uma longa dissertação de Bakunin —, fomos obrigados a ler em dupla a apostila distribuída pelo tal. Não satisfeito com essa liderança bastante contraditória, determinou quem ia sentar-se com quem, e com certeza imaginou que não poderia haver melhor companhia para o Diabo do que uma mulher feia. 

Para os seus vinte anos, Marina tinha amadurecido muito rápido. Tomou a iniciativa de escolher um recanto afastado de todos, próximo ao janelão de sobrado, e ali ficamos. Líamos sem pressa, trocando as dúvidas, apontando uma frase ou outra, sorrindo a uma tirada mais forte do revolucionário russo, convencendo-nos pouco a pouco, por uma troca de olhares intelectualmente mais cúmplice, que estávamos ali brincando de anarquistas. 

Em todos esses pequenos gestos, minha amiga foi enchendo os meus olhos de detalhes. Tinha os lábios nem finos nem carnudos, um sorriso claro, às vezes coçava brandamente a ponta do nariz pequeno e bem-feito, ou arqueava uma sobrancelha adequada ao tamanho e formato do rosto, e falava baixo mas de modo assertivo, sorrindo sem acanhamento quando arriscava uma opinião, os olhos grandes, negros e curiosos, muito curiosos. Quando fui passar uma página, ela pousou a mão direita sobre a minha; era macia, quente, magra, e tinha os dedos longos de intelectual boa de cama. Senti vontade de brincar com ela sobre isso, cheguei a abrir a boca, e calei-me. Olhei surpreso para ela — todos aqueles detalhes, recombinados agora sob uma luz mais pura, tornavam-na linda, aconchegante e ao mesmo tempo faminta de minha própria fome. 

Não aconteceu mais nada naquele dia, mas voltamos para casa de mãos dadas, silenciosos, sob o olhar atônito do Chicão, com suas bombas imaginárias.


[19.10.2007]
Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 19/10/2007
Reeditado em 19/10/2007
Código do texto: T701682

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 69 anos
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