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O FILHO, A ÁRVORE E O LIVRO

Diz o ditado: um homem para ser feliz precisa ter um filho, plantar uma árvore e lançar um livro. Esta é a receita da felicidade. Confesso que estou próximo à chegada da porta do paraíso, já, percorri boa parte do caminho. Falta só o filho. Continuidade familiar. É uma forma de não morrer a receita da mãe, as histórias das avós (reais ou imaginárias-todas as têm), ou simplesmente recordar, pois recordar é viver.Entretanto, perpetuar não é apenas gerar, é produzir algo que não seja efêmero e não se desmanche com a onda do mar ou com a fúria do vento invernal. É registrar pegadas em areias fixas, sinais que permaneçam, enquanto ideais, embrião de novas mudanças.Assim, seguindo a regra, estes dias, plantei um pé de bergamota. Senti-me ecologicamente relevante. Parte de uma natureza verde e viva. Um ato banal para alguns, mas muito distante da minha realidade urbana e jurídica. Além disso, uma passagem na terra dos meus sogros, noroeste do Rio Grande do Sul, cidade da soja. Um lugar distante em que é possível, ainda, ver o céu cravejado de estrelas e a dança dos vaga-lumes.O pé de bergamota foi plantado. Vingará ou não. Sei que fiz a minha parte. Foi, para mim, uma festa, como quando dirigi, pela primeira vez.Quem sabe, um dia, ainda, possa sentir o aroma cítrico da árvore, fazer um chá, comer algumas bergamotas (serão as melhores do mundo), ou, simplesmente, jogar mais sementes na terra. Bergamotas, por enquanto, só aquelas do supermercado, já, com gosto de cidade e com preço tabelado.Quanto à produção literária lancei dois livros de poesias. Vai e Voa e Cavalgada de Esperança. Tenho dois filhos. Um adolescente, o outro, recém nascido. O último deles, teve um " período de gestação" de quatorze anos, tal como vinho maturado. Assim, como se criam filhos para o mundo, o livro, depois de publicado, também pertence ao mundo. Uma forma de eternizar as idéias, perpetuar pensamentos e, de certa forma, fazer o bem para uma coletividade indeterminada.Escrever é penetrar no âmago do intelecto humano, extrair a emoção lapidada aos ventos e, com isso, magicamente, criar algo único, uma peça exclusiva. Os poemas são filhos da escrita, frutos da fecundação da inspiração com a palavra, geneticamente modificada, metaforicamente sentida.Assim, sinto-me pai de dois filhos, de um pé de bergamota plantada em solo familiar e de filhos imaginários, que um dia, quem sabe virão. O papel foi escrito, a promessa de árvore plantada e a mãe dos filhos, pelo menos, já, foi escolhida.
                                                                                     Cassiano Santos Cabral


pássaro poeta
Enviado por pássaro poeta em 11/11/2005
Código do texto: T70242

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Sobre o autor
pássaro poeta
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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