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Santo André


Santo André

Não poderia falar das minhas lembranças de menino sem falar também com muito carinho da Vovó Isolina e vovô Sebastião.
A casa deles em Santo André também foi palco de grandes momentos que vivemos na infância. Foram muitas as vezes que saímos de Jaú para passar as férias, ou pelo menos parte delas, na casa da vovó e vovô em Santo André. Era um passeio cheio de emoções. Elas começavam na viagem de trem. Tínhamos que tomar o trem em Jaú indo até a estação da Luz em São Paulo, onde tomávamos outro trem subúrbio para Santo André. A expectativa nas plataformas até que o trem chegasse era grande. De repente, tudo tremia e parecia que a locomotiva ia passar em cima da gente. No trem, o bacana era acompanhar a movimentação dos comissários que passavam o tempo todo, ora para pedir a passagem, ora para oferecer coisas para comprar. Logicamente, pedíamos para o papai comprar de tudo, sanduíches de mortadela, coxinhas de frango, revistas e jornais, biscoitos, chocolates e doces. Tudo cantado em voz estridente que a gente gostava de imitar. Depois de ter passado tudo, era a vez de passear pelo trem. Andava por todos os vagões, vendo tudo e todos. Muita coisa estranha podia ser vista, principalmente na segunda classe, que parecia um mundaréu de gente empoleirada. O vagão restaurante era um dos mais interessante de ser visitado. Certa vez em uma dessas visitas, eu vi o cozinheiro preparando comida e coçando o vão dos dedos do pé. A partir deste dia eu nunca mais insisti com o papai para comprar coxinha ou sanduíches, meus pratos prediletos. Outro costume era seguir viagem parado na junção entre os vagões que, além de chacoalhar mais, era estratégico para acompanhar a movimentação no trem, onde sempre aparecia um flerte aqui e ali. As passagens pelas estações sempre eram acompanhadas com atenção. Eu ficava atento a tudo, prestando atenção nas roupas e fisionomias tentando formar uma idéia de como era a vida naquela cidade. Passadas cerca de seis horas, finalmente desembarcávamos em São Paulo. O papai passava apuros para conseguir manter todo o bando reunido numa caminhada frenética para fazer a baldeação para Santo André. Eu não conseguia entender porque tanta correria. Hoje imagino o que o papai e a mamãe passavam de tensão e estresse nestes momentos. Ao pegar o trem subúrbio, as emoções repetiam-se novamente e tínhamos mais cerca de duas horas de trem para curtir até Santo André. Lá, a vovó morava num grande sobrado, localizado na rua Senador Flaquer, até hoje uma das ruas mais conhecidas da região central da cidade. A entrada da casa era uma porta pesada que dava direto na calçada. Passando por ela, tinha uma longa escada em dois lances, com cerca de trinta degraus cada um. Ao topo desta escada havia um frágil portão de madeira que era o motivo de preocupação constante da mamãe e do papai, temerosos de que alguma das crianças escapasse e caísse naquela escada abaixo. Como sempre eu era o maior alvo dessas preocupações. Sempre eu (coitadinho do Lú). No topo desta escada à esquerda, havia uma sala de televisão. Um dos locais mais especiais da casa. Na época não tinha TV em Jaú, sendo para nós uma atração à parte. Ao acordar na manhã seguinte o primeiro pensamento era pedir ao vovô para ligar a televisão. Era muito difícil aceitar as explicações do vovô de que a TV entrava no ar somente as onze da manhã. Insistíamos tanto, que às vezes ele ligava mesmo antes deste horário. Daí ficávamos olhando para o chchchch, sinal de fora do ar ou olhando para a imagem fixa do indiozinho da TV Tupi, principal emissora da época. Lembro-me de dois programas infantis que adorávamos assistir pela manhã: gincana Califórnia Pullman, apresentado pelo Randal Juliano e o famoso programa Pim-Pam-Pumquese levado ao ar as três da tarde de sábado. Quem não se lembra da música do programa? Pim-Pam-Pum Estrela Pim-Pam-Pum Estrela Pim-Pam-Pum Estrela.
A casa era grande e cheia de quartos que vovó oferecia a pensionistas. A rotatividade não era muito grande, mas o suficiente para sempre ter gente nova para conhecer. Os quartos saíam todos de um corredor central, tendo à direita a cozinha ampla onde a vovó dava provas de suas habilidades culinárias e como dava. Era uma cozinheira de mão-cheia, tanto que anos depois, após sua mudança para Jaú, a macarronada da vovó Izolina era a atração máxima no almoço de domingo. Ela fazia questão de ver todos comendo até não agüentar mais. Se falasse em levantar da mesa ela ficava brava. Passando-se pela cozinha, dava-se para uma grande varanda cercada por uma mureta de um metro. Olhando-se sobre esta mureta, podia-se ver o desnível que o sobrado fazia com o nível da rua. Mais de dez metros. O fato mais inusitado que me lembro desta casa foi certa vez que às vésperas de uma dessas viagens para Santo André, o papai ganhou uma leitoa de um aluno, como pagamento por aulas particulares. Talvez pensando em ter ajuda da vovó na preparação, ele resolveu levar a porca conosco na viagem. Confesso que não me lembro qual foi à estratégia que ele usou para viver aquela maratona de trens, plataformas e escadas empunhando o animal, lembrando que o porco é um animal que faz coco e solta pum o tempo todo. Imagino as situações constrangedoras que se sucederam. A verdade é que a porca conheceu a capital. Porém foi uma das últimas coisas que ela fez. Não se sabe como, ela pulou por sobre a mureta e estatelou-se na calçada. Sai correndo com o papai para ver o animal e ainda foi possível ver a porquinha estrebuchando no chão. Esta cena gravada na minha memória me permite estimar o peso da porca de quinze a vinte quilos. O fato foi tão inédito que muitas vezes nos referíamos ao episódio como “O suicídio da porca”.
 O vovô Sebastião tinha uma figura mais sóbria, mas igualmente carinhoso com os netos. Todas as vezes que ele ia para Jaú nos visitar, levava alguma coisa para as crianças. A mais comum delas eram balas de cevada, que vinham numa latinha, igual às que são apresentadas às pastilhas Valda ou, às vezes, chocolates.
Todos nós ficávamos esperando curiosos para saber o que ele trazia nas sacolinhas do Mappin que ele sempre portava. Saudades do vovô e da vovó. Escrevo estas linhas em homenagem a vocês.


luiz peixoto
Enviado por luiz peixoto em 11/11/2005
Código do texto: T70270
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Sobre o autor
luiz peixoto
São José dos Campos - São Paulo - Brasil, 63 anos
26 textos (2004 leituras)
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luiz peixoto