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Fotografia ou Topografia


Em 1971, estava no segundo ano da primeira turma de Agrimensura do IPOLON ( Instituto Politécnico de Londrina), eu e João Adailtom fomos contratados para fazer um levantamento planialtimétrico das ruas de Ivatuba, norte do Paraná, às margens do Rio Ivaí. Na época a cidade ainda não tinha asfalto, o prefeito era o mais novo do Brasil, se não me engano, tinha só 24 anos.
Eu tinha comprado a prestações um aparelho de topografia usado, e já estava me aventurando a prestar serviços, João Adaíltom era o melhor aluno da classe, ele com 18 e eu com 17 anos. Chegamos a Ivatuba numa tarde, o Prefeito nos recebeu e se ofereceu para nos alojar em uma das duas opções da cidade: uma pensão antiga, casa de madeira, quartos e banheiros separados, mas tinha fama de ter uma ótima cozinheira. A outra era de material - na época era assim que se chamavam as  casas de alvenaria no Paraná - localizada em cima do cinema da cidade. Eu preferi esta, pois já tinha almoçado lá e eles serviam um guaraná geladinho por conta da Prefeitura. O João queria a casa de madeira, pois serviam no almoço mostarda à vontade (aquela que se põe no sanduíche). Acabamos ficando na de alvenaria, consegui convencer ao João de que poderíamos comprar um tubo de mostarda na quitanda.
No dia seguinte, tomamos um café com pão caseiro, conversamos com a dona da pensão que nos chamava de doutores, e nós não desmentíamos, a gente se "achava" (cursávamos apenas o 2º ano de um colégio técnico). A prefeitura nos arrumou um auxiliar para transportar a régua de medição dos desníveis, conhecida como “Mira”.  O auxiliar, um nordestino atarracado de boa prosa e parecia ser muito querido na cidade. As pessoas perguntavam a ele o que estávamos fazendo, ele respondia: -Os doutores estão marcando as ruas para vir o chão preto, e todos ficavam satisfeitos com a proximidade de vir asfalto para a cidade, coisa dos tempos modernos, e também admirados com a pouca idade dos “doutores”... Aí a gente falava ao Marcionílio:
- A aqui não é a cidade do prefeito mais novo do Brasil? Pois é, agora tem os engenheiros mais novos também.
No começo o pessoal meio ressabiado não conversava com a gente não, mais devido à simpatia de Marcionílio eles iam chegando.
Este aparelho de topografia fica sobre um tripé, muito parecido com as antigas máquinas de fotografia, dos lambe-lambes. As pessoas perguntavam se ela tirava fotografia, eu dizia que sim, João não aprovava muito isto, mas o aparelho era meu e ele não me desmentia.
Na hora da entrada e saída das meninas do normal e ginásio, nos ficávamos fazendo pose de Engenheiros sérios, se eu estava com o Marcionílio, dava um jeito de ficar perto do aparelho. Normalmente era o João que fazia as leituras, menos nestas horas.
Uma vez deixei o Marcionílio olhar na lente do aparelho, ele ficou assustado de ver tudo de cabeça para baixo! O aparelho tinha um jogo de lentes que invertia a imagem...
- Uai doutor, o mundo aqui dentro vira de cabeça para baixo!?
- É assim mesmo Marcionílio, o bom é quando vamos ver uma menina de saia rodada!
- É verdade? Então isto eu quero ver tamém...
- Pode não Marcionílio, isto é só para os Doutores....
Quando fomos ficando mais conhecidos alguns vieram pedir para eu tirar fotografias deles, eu não deixava por menos: mandava as pessoas fazerem poses, e abria e fechava uma janela com um espelho que usávamos para jogar luminosidade para dentro do aparelho. E falava:  pronto! - as pessoas espantavam, pois não havia explosão do flash, eu falava para eles:
- É assim mesmo esta máquina é moderna.
- Quando vão ficar pronta as fotos Doutor?
- Nós vamos levar para o laboratório em Londrina depois trazemos para vocês?
- Quanto vai ficar?
- Não se preocupem só vou cobrar de vocês o preço de revelação; é menos da metade que vocês pagam por aqui...
A tardinha quando estávamos terminando a jornada sempre aparecia alguém querendo tirar fotografia, eu lá mandando os caras a fazer pose, uns vinham com cavalo bem arreado, outros emprestavam carros para fazer pose, e eu só clicando.
João preocupado:
- Dermeval! Você tá arrumando para nós...
- Não esquenta João, depois eu falo que o filme queimou; ninguém tá pagando mesmo.
Um dia antes do café da manhã apareceu o prefeito com ares de pouco amigo:
- Meninos o que vocês estão aprontando?
- Nada seu prefeito, só estamos brincando com os amigos de tirar fotografia.
- Pois é, o fotografo da cidade está reclamando de vocês, pois está perdendo a clientela dele. Eu sei que esta máquina de vocês não tira foto nenhuma, vocês vão me complicar, é melhor parar com isto.
- Pode deixar seu prefeito, vou falar que acabou o nosso filme...
Paramos com a brincadeira, mas uma vez não pude evitar: uma normalista linda se aproximou e disse:
-"Seu" menino Engenheiro tira uma foto minha?
Como negar? Pensei comigo.
- Moça, acabou o filme, mas eu reservei um especial para você. Só precisamos escolher um lugar bem bonito, e que os outros não vejam, pois o fotógrafo da cidade reclamou de nós para o prefeito.
 Escolhemos a entrada da cidade que tinha um portal bem florido. Marquei uma hora no dia seguinte, e fui para lá...Sozinho e com o aparelho às costas, cheguei. Nada da moça...Esperei, já preocupado com as cobranças do João. Quinze minutos depois, ela chegou, linda com o uniforme de normalista, saia pregueada azul-marinho, camisa branca engomada, cabelo arrumado, levemente maquiada, com batom vermelho, coisa que para aquele tempo e de dia era muito! Eu que, em Londrina, nunca tinha feito sucesso com as meninas da cidade, aqui com essa beldade, parecia um sonho. Pedi para ela sentar sobre a letra “b”, de Ivatuba, abri e fechei a janelinha rapidamente. Depois falei que ia tirar uma foto dela comigo, para isso ia marcar um disparador automático, com tempo, e corri e sentei na letra “a” do lado dela, passei meu braço pelos ombros dela - muito atrevimento meu - coisa que nunca tinha feito até então, a não ser com as irmãs e primas mais velhas. Este “disparador” levou uns cinco minutos para funcionar, até que ela desconfiou. Não notei que estávamos sendo observados, ainda tirei muitas outras “fotos” dela.
  Ela estava ficando preocupada com o preço das fotos:
- Menino isto não vai ficar muito caro?
- Não se preocupe, é um presente meu para você!
- É só você me deixar ficar com algumas cópias...
Quando me dei pela hora senti a distância que João já estava uma fera...
Resolvi encerrar a sessão de fotos, mas a amizade já estava sedimentada... Convidei -a para ir ao cinema comigo, aquele de baixo da pensão. Ela rejeitou de pronto, falando que estava prometida para um rapaz na cidade - veja bem, prometida, não comprometida, em 1971 no norte do Paraná, isto existia!
Voltamos para a cidade, isto é voltei, ela não me acompanhou...
João fuzilando de raiva:
- Precisamos terminar o serviço e você tirando fotos, assim não dá.
- Calma João!  Estas fotos valeram a pena, a moça era muito bonita.
- Que fotos?
- Estão aqui João. Falei apontando a cabeça..
- Estas nunca mais vou esquecer...
Voltamos para o trabalho; nesta tarde, o João não trocou uma palavra comigo, o tempo de trabalho, nos ensinou a trabalhar com gestos, e quando ele precisava falar comigo, usava o Marcionílio de mensageiro.
Voltamos, ao escurecer, para a pensão; a normalista não saia da minha cabeça; que diabo de promessa era essa!... Dava vontade de raptá-la, se fosse possível não hesitaria...Coisa de adolescente que nunca tinha tido um "lero" com alguém.
Fomos dormir cedo, muito cansados, João pegou no sono rápido, eu não conseguia dormir. De repente batidas na porta, abro-a imediatamente... era o prefeito:
- Você não tem jeito mesmo, não é rapaz? Voltou a arrumar confusão para mim, pode arrumar suas coisas que vou levá-los para uma cidade vizinha.
- Que isto prefeito, foi só umas fotinhos, não aconteceu nada.
- Ainda não aconteceu. Disse o prefeito - mas basta o Ricardo saber disto que ele vai querer tirar satisfação com você, além de querer cópias do filme, e aí o que você vai fazer?
Ricardo era filho do ex prefeito, inimigo declarado do atual, que quebrou uma hegemonia quase centenária de família.
- Desculpe, foi mal.
- Desculpe! Você não sabe aqui o que é tirar satisfação! Aqui, vocês estão correndo riscos.
- Arrume suas coisas que vou levá-los para Dr. Camargo, e arrume outro colega para terminar o serviço, pois vocês não podem mais por o pé aqui.
Até que o prefeito foi camarada, talvez sua pouca idade o fizesse mais próximos de nós.
- João já estava arrumando as coisas, furioso comigo.
Chegamos a Londrina arrumamos um colega que já tinha alguma experiência para terminar o serviço, e levou a informação que nós os “doutores” tínhamos sido despedidos da empresa asfaltadora...
- E eu fiquei com apelido de Fotógrafo até o final do curso...
Defranco
Defranco
Enviado por Defranco em 20/10/2007
Reeditado em 02/07/2013
Código do texto: T702830
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Defranco
Bragança Paulista - São Paulo - Brasil, 63 anos
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