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TROPA DE ELITE E FOUCAULT

 TROPA DE ELITE E FOUCAULT



Na semana passada, irresignado com a notícia de que o comando da Polícia Militar do Rio de Janeiro havia convocado os diretores do filme TROPA DE ELITE para prestarem esclarecimentos a respeito da eventual participação de militares na película, dediquei parte da crônica daquela semana ao fato, assim como à detenção do proprietário de uma lanchonete, na pacata Penedo, no Estado de Alagoas, porque havia denominado um de seus sanduíches de “sargento”.
Finalmente assiste ao filme TROPA DE ELITE, lá mesmo em Teresina, no Piauí, num dos cinemas do Shopping Teresina. Gostei do filme, sob todos os aspectos, principalmente enquanto filme mesmo, ou seja, enquanto obra de arte destinada ao entretenimento. Mas o filme não é apenas uma obra de arte ou um produto comercial. Se era, deixou de sê-lo, tamanho foi o envolvimento da sociedade com TROPA DE ELITE. Primeiramente pela larga e desbragada compra-e-venda das cópias piratas, que suscitou o debate sobre a extensão e  o valor dos direitos autorais no país, havendo até o Ministro da Cultura, GILBERTO GIL, se enrolado ao ser perquirido sobre o problema. O filme é agora objeto de análise não apenas dos críticos de arte, passou a interessar aos filósofos, sociólogos e políticos, além da intelectualidade que se encontra facilmente nos bares e botequins em todo o país. Não são poucas as opiniões sobre o filme, há quem o considere como instrumento reacionário por estimular a repressão policial e a tortura. O filme toca também num ponto que incomoda boa parte da militância social do país, os “ongueiros”, que é o pessoal que faz filantropia e, no Brasil, como raríssimas exceções, sempre com dinheiro público (aliás, muito dinheiro público). Por conta destas e outras, é que boa parte dos entendidos que se manifestaram sobre o filme, o vêem como um instrumento da direita. Desconfio, entretanto, que TROPA DE ELITE não passa de um bom filme e que, do ponto de vista sociológico, fez apenas uma clara opção a favor da polícia, o que não é muito comum na cultura acadêmica brasileira, sempre intransigente na defesa dos valores dos marginalizados, inclusive dos fora-da-lei, ou, mais claramente, dos bandidos. A violência é sempre vista como resultado da fragilidade do sistema social e, sendo assim, não deveria ser um caso de polícia, segundo a inteligência brasileira das academias, e, assim, o filme incomoda. Incomoda até mesmo pelo fato de trazer à tela, de forma um tanto quanto desarranjada, o debate sobre as idéias expressas por FOUCAULT em um livro que já é clássico no ambiente universitário brasileiro: VIGIAR E PUNIR, em que o autor alinhava a evolução do poder e da forma de punir do Estado, desde os suplícios da Idade Média aos sistemas modernos.

Não creio que o filme se preste à tantas análises, mas não tiro a razão do diretor, quando indagado, pela milésima vez, sobre o assunto, saiu-se com uma resposta padrão  e que serve para sair das saias-justas deste tipo de situação: pelo menos provocou o debate. Quando alguém diz isso: pelo menos provocou o debate, deve se entender que se fala como se pedisse desculpas, porém não era assim que deveria proceder o tal diretor. Deveria sim, ter defendido seu filme e pronto, porém relevo a resposta, pois sei que respostas melhores poderiam ter lhe custado mais patrulhamento ideológico e até mesmo ter negado o acesso a patrocínios futuros. Sim, isto mesmo, negado patrocínio, pois diferentemente dos filmes americanos – tão desancados pela inteligência brasileira - , aqui somente se consegue fazer alguma coisa com a ajuda da Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica e outras estatais e, aí, não resta dúvida que certas respostas podem custar caro, vez que a maioria dos projetos culturais – afora a área esportiva - patrocinados por essas empresas embutem certos valores ideológicos. Então, como é que patrocinaram TROPA DE ELITE? Vão perguntar aos diretores dessas empresas, poderia cinicamente lhes dizer. Mas, na verdade, acho que eles sequer leram o roteiro e alguém teve capacidade de articulação suficiente para obter os patrocínios, pois o mais comum são os benefícios destinados a projetos culturais ou sociais voltados para resgate dos valores dos moradores das favelas ou, então, que possam, no jargão comum: gerar emprego e renda. Infelizmente, pouco se faz, principalmente para geração de emprego e renda, ante a desídia do Estado em assumir suas responsabilidades para dotar o país de uma infra-estrutura capaz de induzir o desenvolvimento econômico. Quanto ao resgate dos valores das populações marginalizadas e os programas de fomente à inclusão social, os resultados até que são melhores, se comparados aos alcançados pelos projetos de indução ao crescimento econômico, mesmo assim é cada dia mais visível que a rede de ONG´s envolvida nessa tarefa tem muitos fios podres, vulnerando o resultado dos incentivos estatais.

TROPA DE ELITE, então, é o filme. Isso mesmo: o filme. Se não viram, vejam-no, está em cartaz nos cinemas do país e, não ido ao cinema – seja qual for a razão -, será fácil encontrar no camelô ou na casa de um amigo uma “legítima” cópia pirata.

SBU, 21 de outubro de 2007.

Augusto N. Sampaio Angelim
hildinho@bol.com.br

Augusto Sampaio Angelim
Enviado por Augusto Sampaio Angelim em 21/10/2007
Reeditado em 15/03/2008
Código do texto: T704153

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Sobre o autor
Augusto Sampaio Angelim
São Bento do Una - Pernambuco - Brasil, 55 anos
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