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Transparência

Eu sou lúcida na minha loucura, permanente na minha inconstância, irrequieta na minha comodidade, absurdamente confusa e lesada. Pinto a realidade com alguns sonhos, enxerto sonhos em cenas reais. Choro lágrimas de rir e ás vezes quando choro pra valer não derramo uma lágrima.

Amo mais do que posso e, por medo, sempre menos do que sou capaz. Busco pelo prazer da paisagem e raramente pela alegre frustração da chegada. Quando me entrego, me atiro e quando me recuo não volto. Mas não aconselho que me levem muito a sério, sou inconstante de mais e sei que nada é definitivo. Nem eu nem o que penso que eu sou. Nem nós ou o que agente pensa tem.

Amo muito mais a noite, porque me nutrem na insônia, embora os dias me iluminem quando nasce o sol. Trabalho feito louca e não entendo de economizar. Nem água, o que sei que estou errada. Mas esbanjo até quando não devo e, vezes sem conta, devo mais do que ganho,
Não acredito em duendes, bruxas, fadas ou feitiços. Nem vou à missa com a mesma freqüência que deveria. Mas faço simpatias, rezo para algum anjo de plantão e mascaro minha fé no Deus do otimismo. Quando é impossível debocho de mim mesma. Quando é permitido, duvido.

Acredito em Deus, mas não neste que as pessoas veneram tanto. Acredito em um homem puro e forte que sempre intercede por nós. Parei de ler a bíblia, não entra na minha cabeça certas coisas que considero tão absurdas.


Já me achei muito louca ou santa de mais, ainda não chegou o dia em que me senti alguém normal. Não bebo porque só sou aceita quando estou sóbria, nem fumo mais para enganar a minha ansiedade e não aposto em jogo de cartas marcadas. Não tomo café da manhã - prefiro ficar mais cinco minutinhos na cama-, não almoço, vivo de dieta e penso mais do que falo. E falo muito, geralmente o dia todo, ás vezes até dormindo. Nem sempre o que você quer saber. Eu sei.

Gosto de cara lavada – exceto com uns toques leves de maquiagem - pés descalços, nutro uma estranha paixão por roupas brancas, e sinto falta de uma tatoo no lado esquerdo das costas. Mas sei que há uma mulher em algum ligar em mim.

Se você perceber qualquer tipo de constrangimento, não repare, eu tenho pudores, mas, não raro, sofro um pouco de timidez. Arrumo amizades facilmente, mas ás vezes me sinto absurdamente anti-social. Não me considero uma pessoa teimosa, acho que no fundo teimoso é quem teima comigo. E note bem: Não sou agressiva, mas defensiva. Impaciente aonde você vê ousadia. Falta de coragem aonde você pensa que é sensatez. Vontade de fugir quando você pensa que é timidez.

Mas mesmo assim, sempre pinta um momento qualquer em que eu me esqueço de todos os conselhos e tropeços e sigo por caminhos escuros. Estranhos desertos. E, ignorando todas as regras, todas as armadinhas dessa vida urbana, dessa violência cotidiana, se você me assalta eu reajo. Sei bem o que não devo fazer, mas sempre faço. Não sou a pessoa que gostariam que eu fosse e também não estou nem perto de ser quem eu gostaria de ser. Mas sou eu, do meu jeito completamente autentica e transparente. Não aceito regras, pois eu faço as minhas e nem sempre sigo fielmente elas.
Martha Medeiros.
Enviado por Tati Picon em 22/10/2007
Reeditado em 09/02/2012
Código do texto: T704757

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Sobre a autora
Tati Picon
Londrina - Paraná - Brasil, 32 anos
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Tati Picon