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O Direito e o Avesso

          Foi numa tardezinha quente de um trinta e um de dezembro que, a bordo em uma barcaça, e bem acompanhado, realizei um passeio náutico entre o Rio de Janeiro e Niterói, numa espaventosa e reluzente viagem de estupefata beleza pela encantada Baía de Guanabara onde, vivenciei, sem dúvida, um dos mais belos momentos da minha vida.

          Na popa da embarcação assistíamos deslumbrado a um belíssimo final de tarde, enquanto uma agradável brisa soprava, suavemente, esvoaçando os nossos cabelos no ar.

          Envaideci-me com a radiante beleza do momento, o quê não nos permitia a mudes. Por isso comentávamos de tudo à vista: das aves sobrevoando a embarcação; dos rastros de espuma deixados pelos aero-barcos; dos gigantescos aviões sobre nossas cabeças, indo em direção à pista; do esplendor da ponte sobre o mar; do espetacular pôr-do-sol atrás das montanhas; da beleza encantadora da Ílha Fiscal; do bonde do pão-de-açucar ao rasgar uma nuvem; da magnitude e esplendorosa visão do Cristo Redentor abraçando a cidade; das luzes de holofotes riscando o céu; da silhueta dos grandes navios: próximos e a distância; dos turistas, a bordo, com suas falas incompreensíveis; da alegria dos jovens cantando canções alusivas ao Ano Novo; das batucadas no salão inferior da nau, repleta de passageiros e, por fim, da nostalgia irradiada pela canção francesa "Sur le ciel de Paris", magnificamente tocada no acordeom de um artista anônimo, o quê resultou num respeitoso silêncio dos passageiros, que agradecidos, louvaram-no com uma espetacular salva de palmas no exato momento em que a barcaça se atracava no cais do porto. E tudo foi encantamento.

          Aquele era um dos dias de grande significância do calendário carioca: o dia do reveillon, e por isso a cidade mostrava-se frívola devido a correria de multidões que se dirigiam à beira-mar para lá pernoitarem brindando a chegada de mais um Ano Novo. Uma festa quase que folclórica para a cidade do Rio, e eu, com minha família, queríamos também testemunhar daquele júbilo popular, e para tal saímos em busca de entretenimentos mas, em pouco tempo estávamos imobilizados num monstruoso engarrafamento a poucos metros da Praia de Copacabana.

          Ficamos horas inertes trancados no automóvel e sem nenhuma emoção, senão ouvirmos buzinações e termos que, por obrigação, assistirmos à tresloucada correria do povo carregando esteiras; isopores com bebidas e alimentos; cadeiras; sacolas e ramalhetes multicoloridos, para, durante a madrugada, presentearem honrosamente a rainha do mar.

          A tudo assistíamos quietos, sossegados. E foi nesse ínterim de restrita liberdade de ação que presenciei a um espetáculo indigno para o festivo momento: o tormento de um mendigo. Este, abria uma sacola e dela retirava uma banana nanica – provavelmente sua única comilança do reveillon – e, ostentando-a, numa aparente desmotivação da vida, ameaçava comê-la, mas, a guardava na sacola. Entristeceu-me ver aquela cena de  brutalidade em plena sala-de-visita-do-Brasil, e tive o desprazer de assistir a fome atormentando um homem que parecia estar padecendo no seu próprio purgatório.  Seu semblante era de desolado, pois o valor do "nada" o denegria, e a tortura moral o definhava.

          Passaram-se alguns instantes, e ele mais uma vez repetia a cena: olhava para a banana e a guardava; e repetia o seu martírio tirando-a e guardando-a, tirando-a e guardando-a.

          Os transeuntes plenamente o ignoravam: ele não era ninguém, não era nada. Era um ser não importante; um simples mendigo que talvez não tivesse, sequer, direito à própria existência. Um insignificante que estendia suas mãos sujas e... nada mais. Parecia um cão sarnento em meio a alegria de milhares que se dirigiam à requintada festa de luz, prazer, comilança, bebedeira e esplendor. Tudo a se transcorrer em pleno tapete arenoso do Oceano Atlântico.

          Olhei ao meu entorno e vi que aquele esmoler não estava só: havia inúmeros deles, e todos eles cabisbaixos e seminus a esperarem por um adjutório que nunca virá. Convenci-me de que eles não eram humanos em toda plenitude, pois algo de essencial lhes era negado: dignidade.

          Vi a carência implorando na porta da opulência, e ambas se distavam à cerca de anos luz, enquanto que a indignidade e a orgia permaneciam opulentes no cume da desesperança.

          A beleza que há pouco me deslumbrara sobre o mar, agora se ofuscara perante o bem e o mal e tudo me pareceu insolente, incolor e mísero.

          Silenciado em meus pensamentos me pus a indagar:

          - Quais serão os seus fins?

          E certamente alguém diria:

          – Imperdoavelmente, a indigência.
José Pedreira da Cruz
Enviado por José Pedreira da Cruz em 12/11/2005
Reeditado em 13/11/2005
Código do texto: T70726
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Sobre o autor
José Pedreira da Cruz
São Paulo - São Paulo - Brasil
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José Pedreira da Cruz