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Na cama do trampolim da fama

- Tai, cara! Olha o filé que o homem tava comendo...!

João Galheiro engoliu cuspe seco, o último da língua ressequida pela pinga da noite passada. Deu volta no casebre com olhar de soslaio, fungou o cheiro de café torrado no pilão e deu-me resposta à altura:

- Eh! Coisa da melhor qualidade...Tô comendo carne de terceira, mas é com suor e honestidade; Por causa dessas... desse tipo ai, peguei apelido desgraçado... Galheiro!

Não comentei, conheco sua história. Olhei a atual patroa na cozinha, embarrigada mais uma vez. O quinto da escadinha. João não perdoa: lapada certeira; principalmente em noite de lua cheia, durante pescaria.

- Esses meninos foram todos feitos com pinga e peixe, na maior farra.... – Gaba-se, Galheiro. Farra de pobre, distante da realidade dos homens de paletó.

Reclamei da cachaça. Olhei os bichinhos pelos cantos, olhos arregalados,  querendo voar. Menino do mato, sem televisão, só quer mesmo é conquistar o mundo. O da cidade é bicho complicado: impressionado com desenhos de violência, guerra virtual...  Depois, vem reclamação dos omissos: “...o mundo tá muito violento...!”

João quis nem saber da história; deu-me pouco ouvido. Muito ocupado, a rede precisava de remendo. Não a rede de pescaria, a outra: da putaria... Eh! Pobre honesto também gosta de uma “putariada”, só que depois banca conseqüências. Não sai chorando miséria, posando de santo-do-pau-oco para não assumir os ossos do filho da libido.

Naquela noite de visita, cumpri promessa: trouxe novidade da rua; um velho aparelho de Tv. Pronto! Acabei de Infiltrar, na ingenuidade das crianças, um regresso irreversível: amanhã, a alienação infantil diante das carnes “xouxas”. Ensaiei, em silêncio, um fundo musical; letra de atavismo diante de uma geração corrompida pela mediocridade de entretenimento:

Atenxão crianças, A Xuxa tá ficando xoxa
E os antigos baixinhos descobriram a diferença
Entre piu-piu e xoxota: Um ponto para os meninos,
Um ponto para as meninas...

A cama do trampolim.... Ascenção das gostosas na mídia: trepação com famoso e pronto... Lá vem a “Playboy”! Daí para apresentadora de televisão, um pulo: afinal, o povão adora fruto de sacanagem; que não é nenhum xuxu – este é legume. Segundo Gambá, igual a sua mulher: “sem nenhum gosto, mas se não comer vem outro e come”.

Aprendeu a lição!

Desisti da atenção do anfitrião. Dobrei a foto, joguei em cima da mesa de talo amarrada com embira e fui me achegando para os fundos: O café já pronto... Noite longa! As crianças, na sala, sem mais gosto por antigas brincadeiras. Olhos esbugalhados! O casebre tinindo de bala, raio laser, armas cuspindo fogo por toda a tela... corpos mutilados por todos os lados!

- “Será que os homens públicos se preocupam com os filhos assistindo tudo isso!?..” – Pensamento inútil!

- ...deputado gosta mesmo e de discursar, dançar, cantar... e trepar com as boazudas;  preocupação, mesmo: só com o salário defasado...  - João na sua imensa sabedoria!

No cantar do galo, o pau comeu:

- Filho da puta, onde tu arranjou essa foto de muié nua... Tá gastando gala de graça... – O companheiro tentando se explicar, a varada comendo nos lombos.

- É minha, dona Mônica;trouxe pra refrescar a cabeça...! – Salvei o homem enquanto ela me crispava com olhar reprovador.

Enquanto isso, no Planalto Central, o dia amanheceu dando uma espiadinha nas curvas sinuosa da ex-sobremesa do senador Calheiro. Afinal, lá no senado, essa não é história de todo dia... Ou é!?

Até mais ler, pelas pulações de cerca dos quatro poderes!












Kal Angelus
Enviado por Kal Angelus em 24/10/2007
Reeditado em 26/11/2007
Código do texto: T708130
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Sobre o autor
Kal Angelus
Teresina - Piauí - Brasil
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