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E Agora, José?

Eles eram casados há 4 anos e viviam em clima de Lua-de-mel. Além de todas as amenidades que os fizeram se apaixonar, namorar, noivar e casar, eles tinham um sonho em comum: ter um filho. Assim, com “o” no final.

Ele queria jogar bola com o moleque, levá-lo ao estádio, comprar uma bandeira do seu time do coração, comemorar um gol junto com o filhão. Ela, romântica, queria um menino que fosse lindo como o seu pai.

Um dia ela engravidou. Gravidez de risco. Depois de muita emoção, choradeira na família e, apesar das incertezas sobre o que poderia acontecer com a mãe, show pirotécnico, eles começaram a fazer planos. A primeira medida a ser tomada foi a compra de um uniforme da Portuguesa Santista, time do coração do paizão orgulhoso.

No primeiro ultrassom que fizeram, o bebê estava de lado, não deu para descobrir o sexo. No segundo, foi a mesma coisa. Idem na terceira tentativa. Mas a certeza era tanta de que o bebê seria menino, que eles já começaram a decorar o quarto e preparar o enxoval.

Passados nove meses, a criança nasceu, mas a mãe não resistiu. E para aumentar a decepção do marido, era uma menina. O pai então não teve dúvidas. Na hora de registrar a criança, não pensou duas vezes e deu o nome de José. E, pior, decidiu tratar a pobre meninina como se fosse o tão sonhado filhO do casal.

O tempo passou, e a menina cresceu acostumada com o seu nome. Aquilo para ela, era a coisa mais normal do mundo. Mas não para seus colegas de escola, que só descobriram que José era uma menina, lá pelos seus 10 anos de idade, quando seus peitos começaram a crescer.

José então começou a usar uma faixa para esconder os peitos, tomou hormônio masculino para engrossar a voz e vivia de cabelo raspado. Para piorar, passou a arrumar briga na escola e ficou sócio(a) da torcida uniformizada do seu time. Não perdia um jogo sequer da Lusinha.

O dia que José resolveu assumir que era mulher, já com seus 15 anos, foi um choque. No colégio, as mães dos outros alunos queriam que seus filhos mudassem de sala. As mais radicais, queriam que José fosse expulso(a). Na família, a vó morreu de desgosto, os tios não quiseram mais saber de José, o vô resolveu nunca mais falar com o(a) neto(a) e o pai, bem, o pai não mudou nada. Ele tinha sua companhia predileta nos jogos do seu time.
Ricardo Polinesio
Enviado por Ricardo Polinesio em 25/10/2007
Código do texto: T708685

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Sobre o autor
Ricardo Polinesio
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
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Ricardo Polinesio