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TPM

 Hoje meu dia tá uma bosta: quanto mais me arrumo, mais medonha fico. Estou com olheiras. Acabo de sair do banho, mas o cabelo já está ensebando e de nada adianta os milhares de produtos enfileirados na pia. Vou para a rua: se o sol tá forte irrita a vista, se chove fatalmente minha roupa vai ficar suja, se o tempo tá nublado fico com sono. O semáforo demora a abrir; só têm imbecis e lerdos no trânsito e a fumaça fedorenta dos caminhões chega até meu nariz via ar-condicionado. Fedida e fria. O escritório está uma neurose só, o telefone não pára de tocar e sou atolada por spams que ensinam como aumentar o pau que não tenho.

 Vou pegar o carro e o pneu esta furado, corro imediatamente para o posto mais próximo tendo que escutar aquele barulho horrível que faz quando o aro do pneu raspa no chão, no caminho para o posto em todos os sinaleiros possíveis e imagináveis ficam fechados e sempre tem um tolo querendo me avisar que meu pneu esta furado como seu eu ainda não soubesse, como se o barulho fosse baixo ou como se eu não sentisse nenhuma alteração ao dirigir; tento não prestar muita atenção, até que um imbecil tira o capacete cruza a minha frente, para bem do lado da minha janela e fala “tia, o pneu ta murcho” Puta que pariu!!! Tia ... eu??? Quantos anos será que ele pensou q eu tinha...que ódio, será que além da minha cara medonha eu estou com cara de velha?! Bom, chego ao posto o frentista me avisa que preciso ir urgentemente ao borracheiro.
 
 Chego lá e na hora de descer do carro enrosco meu salto em um buraco que até agora eu não entendo por que ele estava ali, justo ali. Enfim, tiro o salto do buraco...delicadamente é claro e tack...ele quebrou. Que ótimo, todos os borracheiros oferecem ajuda, como se eles pudessem colar o meu salto ou ir imediatamente a uma loja de calçado e me comprar um outro e chegar antes do moço terminar de arrumar o pneu.

 Mas enfim; fui manquitola para um restaurante bem próximo do escritório. No almoço, pra melhorar, o garçom é um cruzamento de preguiça gigante com  jumento, a cebola frita vem encharcado de óleo,e a minha Coca Zero quente e sem gás. Tenho vontade de nadar num pote de brigadeiro, mas, se faço isso, quase corto os pulsos. Olho a torta de limão e como: acho que vou enfiar o dedo na goela, no melhor do ritual bulímico. Meu corpo vai inflando feito balão de festa infantil e fico num puta mau humor. Não suporto falar com ninguém. É... tô na TPM.
 
P ara piorar, as pessoas tentam me animar (como se meu estado dependesse de animação!). Fazem piadinhas e me tratam como uma criança birrenta. O próximo passo é fazer pouco caso do meu humor e dizerem com um sorrisinho irritante: "Ih, essa TPM tá brava!".
 
F ico esquisita, mas não me questione. Meus hormônios tiram sarro de mim e gritam em coro: "Você está chata! E feia! E gorda feito uma porca castrada!". Não suporto a presença de ninguém por mais de dois minutos, mas caio em depressão se me deixam sozinha. Tenho cólica e reclamo, mas odeio quando alguém vem, com cara de paspalho, me oferecer um remedinho. Não quero remedinhos, quero sangue..o meu sangue de volta!!!

 Não me importo de ouvir que preciso de tratamento, internação, camisa-de- força, mas fico (mais) histérica quando ousam dizer que isso é frescura de mulher. Ah é? Pois adoraria ver  se os machões agüentariam ficar com cólicas, quatro dias com um tijolo de algodão impedindo seus movimentos, verificando de cinco em cinco minutos se sua roupa preserva a cor original, tentando manter a calma quando a vontade é de morder a quina da parede.

 Além de tudo, temos de suportar essas propagandas de absorventes com mulheres de roupas imaculadamente brancas e vozes aveludadas que só faltam dizer que se usarmos a marca X ou Y sairemos voando, janela afora, de tão livres e frescas..
Tati Picon
Enviado por Tati Picon em 25/10/2007
Reeditado em 25/10/2007
Código do texto: T709303

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Sobre a autora
Tati Picon
Londrina - Paraná - Brasil, 32 anos
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Tati Picon