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Da mulher que ama

        A mulher que ama precisa considerar o amor como uma ação que se pratica. Amassar cada carta desesperada,  suportar tolices e convites. Desfazer enganos entre a simples beleza e o amor desesperado.   Havia uma cerca entre eles e em cada qual uma horta.         Desatou a rir do modo como devolveu a fronha que voou livre ao vento de volta para o quintal do vizinho.Uma mulher que ama não sabe como um entre tantos, apenas um, deixará o seu corpo feliz no bosque encantado.  Sem recursos até o fulgor do sol que magoa a vida da mulher que ama entre potes, moringas, miçangas, plumas e anéis.  Sente o aroma da lenha que vem de um tênue fio de fumaça cortando o frio. Quer ser em chamas o leque de bambu, dançar as cadeiras num gesto de poder cósmico.   Duas vezes lhe gritaram da casa. Que fosse para dentro e saísse do frio.
      Duas vezes desobedeceu. Foi salvar a roupa do vento e acabou recebendo de presente um colar do vizinho. Agradeceu constrangida, pensou que seu coração fosse pulsar em seguida, mas não. Decerto havia encontrado na rua aquela antigualha. Gostava por outra razão. Estava desempregado, ela compreendia o quanto, porém sem perder a fortaleza.  Assobiava ao canarinho senhor de si. No fundo havia a grande indignação. Sequer comia um peixinho assado para não ferir a natureza dos piores momentos. Aquele canário de algodão amarelo na gaiola dava mil graciosos pulinhos. Cantava verso após verso, balançando seu corpinho. Quando voltava do mar tramava soltar o canário.  Sem gaiola esquipática.
       -... Mas e se o canário cativo recusasse a liberdade? Um homem para uma mulher que ama precisa ser tão alto a ponto dos seus pés tocarem o fundo do mar. Ter músculos de sisal além de estrelas que acabam virando brilhantes sobre o paletó surrado entre as caspas dos ombros suportando o mundo.
     A mulher que ama vive um dilema original: se não sabe amar, nunca aprendeu sedução.  A mulher que ama cansa, entedia seca até a espuma do mar? Sabendo amar é porque amou demais.  Tal indecisão deforma o mundo e inventa um tipo de liberdade condicional elegante sobre o amor que não se ensina. A mulher que ama atravessa a noite de onda encrespada e faz o amante ver o mar desaparecer na rocha.
     Quem ela era afinal? Uma mulher que esperava amar. Morando na casa simples com fruteira na varanda e um ar limpo de sândalo. Queria saber de onde nascia o inculto ciúme, tornando a alma pobre, miserável, criminosa daquele que perde do amor à vontade do novo encanto.
     A mulher que ama prova de cada um o doce encanto enquanto olhos cobiçosos amaldiçoam a fertilidade.  Não vê o homem que ama em fúria o inferno que é ter em casa um demônio cativo?
       Mil demônios equivalem a uma esposa triste. Nenhumas invejas sentirão porque na felicidade ondulada há um desvio e uma exclamação de espanto. Ao entrar em casa Isabel parou na escuridão.
      Acabara de ouvir sete histórias encantadas e inéditas num canto de muro. Coitado!  Criatura tão pobre enfiado  no macacão de férias como o hortelão.  Estava desempregado. Seria penoso enfrentar o novo caminho. Pouco romântica e talvez o amor vizinho ridicularizasse o seu vestido simples como os engraçadinhos na esquina.
Tércio Ricardo Kneip
Enviado por Tércio Ricardo Kneip em 25/10/2007
Reeditado em 29/10/2010
Código do texto: T709456
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Sobre o autor
Tércio Ricardo Kneip
Santa Vitória do Palmar - Rio Grande do Sul - Brasil, 55 anos
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