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O dedo sujo



Estes dia minha casa estava cheia de visitas. As visitas eram todas da família, em número de cinco, com acréscimo de minha pessoa, minha esposa e meu filho, somados éramos oito pessoas. Quando nos reunimos é sempre uma festa. Nos damos muito bem. Brigas? É raro acontecer.

À noite, hora de dormir, tivemos que estender três colchões na sala. A preferência da minha cunhada é sempre dormir nela, por ser mais ventilada. Neste dia não foi diferente. Todos deitados, muita conversa, risos, resolvi colocar um pouco de ordem na bagunça, isto é, nas coisas que estavam espalhadas pela sala. Afastei um pouco os móveis, pedi para juntar mais os colchões, lençóis em cima dos colchões, toalhas no banheiro, sapatos e chinelos pondo em um canto da sala, por último foram os sapatos de minha cunhada, ao terminar, sem querer passei a mão nos meus cabelos para ajeitá-los, foi quando senti o indesejável, quase vomitei, minha mão estava um cheiro insuportável, literalmente fedia como nunca tinha visto nem sentido. Subi à escada correndo, fui à pia e lavei duas, três vezes, mas o fedor não saía. Minha esposa já estava deitada, pedi para cheirar minha mão, seu rosto mostrou a repugnância pelo mau cheiro, afastou rápido a mão. Perguntou-me o que significava aquilo, respondi mais do que depressa:
---Ora, peguei nos sapatos de tua irmã para tirar do caminho, foi o último que peguei, creio que o mau cheiro vem deles, não há jeito. Ela olhou-me espantada e resmungou:
--Será? Se bem que ela chegou hoje de viagem, pode ser que esteja assim. Fui ao banheiro e repeti a lavagem das mãos, mas o fedor continuava. Dei um banho de perfume.

Deitei indignado com a situação, não quis certificar-me, dar o privilégio da dúvida à cunhada e seu sapato ou ir tirar a dúvida de novo in loco de que realmente o mau cheiro vinha dos malditos sapatos da cunhada, pois tinha absoluta certeza de que eles eram culpados e, por extensão lógica, conclusão claríssima, ela, minha cunhada, era culpada por não higienizar corretamente os pés.

A sentença de condenação que pesava sobre a cunhada era patente, clara, convicção cristalina, sem sombra de dúvidas, formada e embasada em minha mente. Contra fatos não há argumentos. O sapato da cunhada fedia, com razão deveria ela, a cunhada, ser culpada, pois sapatos não podem lavar-se, os pés sim, sua dona pode fazê-los. Era mais do que lógico.

Comecei a pensar nas piadas que iria criar para gozar, rir da cara dela, no dia seguinte. Ela iria aprender uma lição para nunca mais esquecer, tinha que aprender a lavar corretamente os pés, não era possível deixar o coitado chegar naquele estado.

Com estes pensamentos dormi profundamente, o sono dos inocentes, nem lembro se sonhei, mas o dia raiou rápido, já escutava a voz de pessoas na cozinha, barulho de pratos, talheres, cheiro de pão torrado na manteiga, leite fervendo...., olhei de lado e vi que minha esposa já tinha levantado, passei a mão nos cabelos e, tirei-a imediatamente, o mau cheiro continuava, fiquei preocupado, o que será que tem nos sapatos de minha cunhada para feder tanto assim, perguntei-me enfáticamente. Imediatamente, algo brilhou em minha consciência, raio de luz fulminante, cheirei novamente minha mão, não era ela, cheirei meu dedo que tinha imprensado há duas semanas na porta do carro, então ri..., ri à vontade, justo neste dia, ele, o dedo, resolveu soltar o pus que estava represado embaixo do que restou da unha. Era meu próprio dedo, especificamente, minha unha mutilada, que fedia tanto, como não pude perceber isto antes, perguntei-me.

Fiquei envergonhado por ter desconfiado da higiene de minha cunhada. Contei à minha esposa a procedência do mau cheiro e, depois à minha cunhada, como sempre, tudo terminou em boas risadas, mas restou uma lição para não esquecer, o mau cheiro era do meu dedo, o culpado era eu.

Se, depois de ler esta crônica, realidade, pensares em apontar seu dedo e acusar-me de precipitado, de acusador sem eira nem beira ou de qualquer outra coisa que venha imediatamente à tua cabeça, peço apenas que, antes de mais nada, cheire seu dedo, talvez ele, também, esteja cheirando mau, também.

Muniz de Albuquerque
Enviado por Muniz de Albuquerque em 27/10/2007
Reeditado em 28/11/2011
Código do texto: T711664
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Muniz de Albuquerque
São Paulo - São Paulo - Brasil, 63 anos
136 textos (45508 leituras)
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