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CONEXÃO BRASIL-PORTUGAL*

(...) cada pessoa não é, para nós, nada mais do que essa estrutura ou esse modo de estar no mundo.
(Maurice Merleau-Ponty)


    A todos que não me vão ler um breve e seco "Olá". Como é a primeira vez que escrevo em um blog nem sei ao certo o que postar. Certamente que não sou a primeira pessoa a sentar em frente a um computador para publicar esparsas palavras soltadas a esmo, sem nem saber o que dizer. É quando vem à tona, meio que inconscientemente, aquela afamada pergunta: E agora, o que fazer?, ou então, O que estou fazendo aqui?
    Provavelmente nem estaria agora forcejando o espírito para escrever algo minimamente interessante se soubesse o que estou fazendo aqui. Talvez daí decorra esse ímpeto, essa vontade de "versejar" poucas palavras: uma espécie de tentativa de auto-descobrimento, auto-controle dos meus impulsos mais recônditos. Mesmo que esses impulsos -- histeria de quem escreve -- não sejam percebidos por viva alma sequer.
    Acredito que escrever um blog não seja algo muito diferente do que escrever um livro, por exemplo. Ao menos no sentido do ato solitário de quem o escreve. Solidão que pode crescer e tomar maiores proporções se quem escreve parar para pensar que jamais será lido, a não ser por si próprio. O que não tem a devida graça, diga-se de passagem, na medida em que se ler, ou melhor, se auto-reler, é não extereorizar, algumas vezes (ou muitas?), suas próprias convulsões e angústias. É se encastelar duas vezes; se emparedar feito fera amendontrada nas infinitas trevas escondidas por trás das palavras.
    E se isso de fato for o veredito final desse "aporrinhado" texto, o escritor não se expõe, passando a ser qualquer imagem borrada e/ou turva que se faça dele. Deixa de ter identidade, credo e visão política das coisas que o cercam. Passa a ser, como diz Backthin, uma idéia, uma imagem pré-concebida e que, muitas vezes, não condiz (ou estou errado? -- eita dúvida...) com seu modo e motivo de estar no mundo.
    Eita dúvida cruel: escrever e exorcizar os fantasmas dentro de si, correndo o risco destes gravitarem nas linhas tortas de seus textos, ou não escrever e se angustiar com esses mesmos fantasmas lhe azucrinando os pensamentos? Dizem que o texto, quando feito, é um parto, um filho seu. Será mesmo? Não será o texto o inverso disso? Não será o texto a morte, ao menos que temporária, das angústias que dilaceram aos poucos a alma do escritor? Esse argumento pode ser perfeitamente plausível, ainda mais se entender-se a morte como algo passageiro, como uma espécie de rito de passagem para um outro cosmos. Isto é, como renascimento, como diria Leonardo Boff. Sob esse aspecto, os substantivos "texto" e "filho" se intercruzariam, tornando-se, por vezes, um só.
    Dessa forma, o texto atuaria como algo disseminador, contaminando terceiros com suas angústias e reflexões, que seriam contaminadas com outras angústias e reflexões. Assim, texto não lido é texto morto nos seus próprios ideais. É como se ele germinasse rapidamente, como girinos em poças d'água, mas secasse em seguida, secando igualmente o escritor, seu "pai", que estagnou, se petrificou no tempo e não se contaminou com as angústias e reflexões de outros tantos angustiados.
    Penso que encontrei o propósito para esse texto. Eis o motivo principal dessa conexão Brasil-Portugal, ou talvez não. De repente esse rapaz do sul do Brasil, de um estado denominado Santa Catarina, oriundo de uma bela ilha colonizada por açorianos (capital desse mesmo estado), não seja ouvido. Sei lá eu qual o destino desse texto. Será também que existe alguém interessado em me "ouvir", em dialogar comigo, dividindo e compartilhando minhas angústias? Perguntas e mais perguntas... Somente o tempo poderá respondê-las, ninguém mais.

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* Publicado inicialmente no BLOG DO SAPO (portal português), em meu blog pessoal: "BLOG DO VISCONDE - Pensamentos e Idéias de um Sabugo de Milho". Como foi o texto de estréia no sítio, resolvi pensar algumas coisas pertinentes ao diálogo entre os dois países, pensando sempre pelo viés da produção textual. Por isso achei melhor conservar o mesmo título.
PÁGINA DO BLOG: http://viscondesabugosa.blogs.sapo.pt
PÁGINA DO TEXTO: http://viscondesabugosa.blogs.sapo.pt/353.html
Jóe José Dias
Enviado por Jóe José Dias em 27/10/2007
Reeditado em 22/01/2014
Código do texto: T712896
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Jóe José Dias
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 37 anos
30 textos (5304 leituras)
2 e-livros (72 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 22/08/17 09:06)
Jóe José Dias