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Manacá

Não sei ao certo se quando eu nasci, ele já habitava o pequeno jardim, mas isso não tem importância. Eu o conheci de verdade, quando comecei a freqüentar aquele espaço. Estava fincado no centro do meu paraíso. Ao seu lado; minha montanha, -restos de areia para a construção que meu pai fazia. Seu nome? Manacá! É, falo com saudades do meu Manacá, um pequeno arbusto, -hoje eu sei, mas que naquele tempo já distante, era para mim uma verdadeira árvore.
A casa que abrigava o jardim era modesta, nós éramos modestos mas, eu me orgulhava por morar na única casa da rua que tinha um jardim. Naquele tempo eu queria mesmo era ganhar o espaço da rua de terra, -como os outros meninos, mas, não tinha a permissão de meus pais. Me restava; o jardim, o Manacá, meu monte de areia, meus sonhos!
Com pouco tempo de convivência nos tornamos amigos. Eu chegava da escola perto da hora do almoço, tão logo me livrava dos deveres, rumava para o jardim. Na montanha de areia eu moldava "castelos", construía "barragens", "pontes", "túneis". As vezes, o pequeno monte servia de trincheira, me abrigava das flechas e projéteis disparados por índios e bandidos imaginários.
O Manacá parecia estar sempre sorrindo, mesmo nas horas mais difíceis para mim; quando a represa rompia, ou ainda, quando era atingido por uma bala certeira disparada pelo "terrível facínora".
Penso que foi a solidão de filho único até então, que me levou a dialogar com ele. Além de bom amigo, era eficiente analista; eu me deitava ao seu lado no divã de grama e falava sobre minhas angústias, meus medos. A "sessão" durava horas, ele me ouvia pacientemente. Talvez tenha sido ele o melhor dos meus analistas; naquele tempo eu não sofria de insônia, não vivia tenso e não era obrigado a ingerir lexotan.
Eu o vi chorar algumas vezes, coincidentemente eu também estava chorando nessas ocasiões. Como castigo por travessuras que eu fazia, minha mãe colhia um de seus ramos flexíveis e minhas pernas recebiam algumas lambadas. Sempre pensei que o Manacá chorava por ter tido um de seus ramos ceifados, hoje tenho certeza de que era pela minha dor.
Além de amigo de folguedos e analista, aprendi com ele a existência das estações do ano, aprendi que "flores não são eternas", em algumas épocas elas desaparecem, - como a felicidade, os amigos e os amores.
Um dia, nem sei bem quando, subi bem alto em minha montanha, dei um salto e parti para o futuro e o Manacá, para um lugar incerto e não sabido, -cedeu seu espaço para uma edificação. A enxurrada do tempo deu conta de minha montanha, dos índios, dos bandidos e principalmente de minha infância.
Décadas depois, quando eu não me lembrava mais dele, percebi seu florescer em minha mente, estou certo de que foi uma de suas sementes lançadas em meu subconsciente que germinou. Agora posso conversar com meu Manacá novamente. Em minhas noites de insônia; eu falo e ele escuta. A visão de suas flores lilás, enfeita minha angustia.

Se alguém se interessar, posso ceder sementes. Basta plantar na mente, regar com muita imaginação e colher suas flores.

Laerte Russini
Enviado por Laerte Russini em 28/10/2007
Código do texto: T713539
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Sobre o autor
Laerte Russini
São Paulo - São Paulo - Brasil, 66 anos
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