Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Medos

Depois de ouvir do pai que ele não tinha medo de nada, Marcio Flávio tomou coragem e começou a pedalar sua bicicleta, sem as duas rodinhas. Até que 7 segundos depois, estava ele ai, no chão, com o joelho sangrando e o cotovelo todo ralado. Sem entender muito bem o que tinha acabado de acontecer, o menino de 6 anos olhou para trás e viu o pai, um sujeito destemido, correndo até ele para tentar ajudar.

- Você falou que não ia acontecer nada.

- E não aconteceu. Isso é normal, meu filho.

- Normal? – perguntou o menino, olhando para todas as pessoas do parque que pedalavam, faziam manobras e nenhuma delas tinha um ralado sequer no joelho.

- É normal sim. Agora se levanta daí, enxuga essas lágrimas e vamos tentar de novo.

- Eu nunca mais vou andar de bicicleta.

No carro, voltando para casa, o menino não falou mais nada. Ficou ali, emburrado, olhando pela janela. O pai até tentou puxar assunto, fez algumas brincadeiras, mas Marcio Flávio nem se mexeu.

Quando eles chegaram em casa, o menino foi correndo para o colo da mãe. Contou o que aconteceu, ela deu um beijo no machucado e disse que não era nada, que logo logo aquela marca não iria mais nem existir. O humor dele foi se transformando aos poucos, e ele até esboçou um sorriso.

Mais tarde, o pai estava na sala de TV, quando Marcio Flávio chegou logo perguntando:

- E cobra?

- Que foi?

- Cobra, pai! Você tem medo de cobra?

- Não.

- Fantasma?

- Não.

- Monstro?

- Também não.

- Altura?

- Menos ainda.

- Dormir de porta fechada?

- Eu faço isso todas as noites.

- Você não tem medo de nada mesmo, pai?

- Nadinha.

- Nem de ladrão?

- Nem de ladrão, meu filho.

Depois deste interrogatório, o menino estava novamente achando que seu pai era realmente o seu herói. Como se fosse a criança mais corajosa do mundo, ele ainda falou:

- Tá bom, então amanhã eu quero andar de bicicleta de novo. – E saiu correndo para brincar no seu quarto.

O pai passou o resto do sábado feliz da vida. Ele tinha reconquistado a confiança do seu filho. Ele ainda comeu uma pizza com a esposa antes de se deitar, ansioso com o dia seguinte.

Mais ansioso ainda, estava o menino. Ele não conseguia nem dormir, só de se imaginar pedalando, empinando e derrapando, sem nenhuma rodinha na sua bicicleta.

Depois de imaginar todas as manobras possíveis que ele faria no dia seguinte, ainda a noite, resolveu contar uma delas para o seu pai. Antes de entrar no quarto dos pais, porém, ele colocou o ouvido na porta.

- Vou dormir, Luis Roberto, boa noite.

- Boa noite, querida.

- Apaga a TV.

- Tá bom, meu amor.

- O abatjour também, Luis Roberto.

- Você sabe que eu não durmo no escuro, Marisa.

Marcio Flávio ficou em estado de choque. Não teve coragem de entrar no quarto. E nem de andar de bicicleta. Nunca mais.
Ricardo Polinesio
Enviado por Ricardo Polinesio em 28/10/2007
Código do texto: T713667

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Cite o nome do autor e o link para o site "www.polinesio.zip.net"). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Ricardo Polinesio
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
68 textos (5656 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 20/10/17 22:08)
Ricardo Polinesio