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Alegria e tolerância de cada dia

Alegria e tolerância de cada dia

As conversas em Pedro Leopoldo, MG,  podem nos render boas surpresas. Como a de não saber ao certo o que as pessoas falam quando dizem, por exemplo, que vão “lá em cima” ou “lá em baixo” na Rua Comendador, chamada por nós de “principal”. Algumas já me explicaram que “em cima” refere-se ao ponto mais alto do Ribeirão da Mata, outros preferem dizer que é a Igreja Matriz o ponto de referência para “em cima”.
Seja utilizando uma referência religiosa ou natural, o certo é que nós utilizamos termos, palavras e expressões que nos parecem ser exclusivos. Enrique Tavares teima em me dizer que só em Pedro Leopoldo as pessoas falam em “bonina” para uma determinada cor, Gisnaldo Amorim chega a espantar seus filhos quando usa termos como “Quédis” ou “Murundu”. Esses são somente alguns exemplos, penso, também do traço interiorano que tanto encantou Guimarães Rosa e que ainda conserva Pedro Leopoldo, fazendo com que as pessoas partilhem códigos cotidianos, pela linguagem, que parecem conhecidos, mas soam como estranhos a pessoas de outras localidades.
Afinal, eu partilho também da hipótese de que os habitantes de uma cidadezinha acham que ela é em alguma medida também o umbigo do mundo e, por isso, seus habitantes costumam contar a singularidade e originalidade de seu povo aos quatro ventos. Assim fazem, por exemplo, quando elegem galerias de ilustres ou nada ilustres pessoas (as dez mais, as dez menos, coisas do tipo). Quem já ouviu alguma pessoa dizer em Pedro Leopoldo algo como “o único do mundo”, “o melhor do mundo”, “o primeiro do mundo” para falar de pessoas, coisas, acontecimentos daqui?
Uma cidade pequena costuma ser assim mesmo: tem um pouco das melhores coisas do mundo, também um pouco das piores. Ariano Suassuna disse que as cidades pequenas são com freqüência inspiradoras para a literatura, porque nelas toda loucura é visível, toda genialidade é maior do que parece ser e ninguém é de fato visto como normal, em especial porque sua privacidade está com freqüência exposta: os vizinhos te observam, você não transita no anonimato e sua vida vez ou outra cai no gosto público sem que nem você mesmo saiba ou queira. Por isso, quando ficamos doentes, costumamos morrer mais de uma vez no gosto do povo. Quem nunca ouviu dizer de pessoas que morreram, quando de fato ficaram doentes ou se mudaram daqui? Eu tenho uns conhecidos que só de ouvirem dizer que fulano foi “encaminhado” para “Belorizonte” tratam de telefonar para perguntar o horário do enterro.
A vigilância também afeta pessoas tímidas, rotuladas em Pedro Leopoldo quase sempre por “sistemáticas”; as insistentes por “ínguas” e as cansativas por “inconhas”. Dessa forma, numa cidade pequena você tem grande chance ser visto como desajustado, louco ou gênio (o que, de fato, você pode ser). Talvez por isto haja, em cada família, no mínimo um sujeito que sabe imitar muito bem o padre da cidade ou o prefeito (afora Sílvio Santos, Lula e Fausto Silva).
Mas essas práticas, de explicitação das intimidades e características pessoais, encenando-as seja como tragédia ou comédia, se de certa forma tem o seu lado divertido e pitoresco, pode contribuir também para nos transformar em intolerantes, pessoas que não suportam mínimos traços de diferenciação, singularidade ou desvio de padrões físicos ou de comportamento nos outros. Ou ainda, em pessoas que não conseguem ouvir críticas, tão certas estão de seus julgamentos.

Publicado originalmente em Jornal Aqui, Pedro Leopoldo, em maio de 2007, p. 7.
Júnia Sales
Enviado por Júnia Sales em 28/10/2007
Reeditado em 10/11/2007
Código do texto: T713814

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Sobre a autora
Júnia Sales
Pedro Leopoldo - Minas Gerais - Brasil, 49 anos
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