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Ruídos do tempo

Ruídos do tempo

Há alguns anos a Faculdade de Pedro Leopoldo, MG,  realizou um projeto de história oral de ferroviários intitulado “Nos trilhos do tempo”, desenvolvido pela profa. Andréa Casa Nova Maia e pelo professor Rogério Arruda, ambos do Curso de História. Este projeto foi parcialmente financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais, a FAPEMIG e contou com amplo apoio institucional das Faculdades de Pedro Leopoldo. Além disto, o projeto beneficiou-se do acervo fotográfico pessoal de cada depoente e também do acervo do Arquivo Público Municipal Geraldo Leão, PL. À época, como coordenadora do Centro de Pesquisa e Extensão, tive a honra de acompanhar o desenvolvimento do projeto, que, dentre outros frutos, gerou a publicação do livro “Nos trilhos do tempo: história oral e memória iconográfica de ferroviários de Pedro Leopoldo”, pela editora Mazza. O lançamento do livro aconteceu no cinema Marajá, com a presença dos entrevistados e de suas famílias. Comovo-me ainda hoje em lembrar de que em cada um era possível ver um brilho no olhar ao se lembrar do trabalho na Ferrovia e, mais que isto, em constatar que sua vida teria sido alçada à condição de valor – uma vida narrada em um livro. Um deles chegou a me dizer durante o coquetel que já poderia morrer, pois havia plantado árvores, criado seu filho e, na velhice, então, naquele dia, escrito um livro. Ele faleceu há alguns meses e tenho certeza de que em sua contabilidade cultural haverá a soma do livro escrito, talhado nos trilhos e escrito por meio de um depoimento solidário concedido a jovens pesquisadores “da nossa Faculdade”.
“Nos trilhos...” é uma produção de que a cidade pode se orgulhar – embora escrito com cuidadoso rigor acadêmico, não perde a leveza fundamental à literatura concebida sob o signo da oralidade. A voz de quem fala a cidade e a vida nos trilhos é, decerto, o narrador do livro, aquele que encena a memória e seus percursos. Muitos daqueles depoentes envelheceram nos trilhos.
Em recente passeio a pé sobre os trilhos da ferrovia, lembrei-me de "Nos trilhos..." Bela obra, um presente ao passado da Ferrovia e um alerta ao seu presente-futuro. O passeio me deu algo mais que lembranças. Deu-me a pensar que a própria cidade talvez tenha envelhecido também com o mesmo sentido de sucateamento que a ferrovia.
Vi sulcos carcomidos em dormentes, a desolação de seus percursos, a paisagem de abandono de suas antigas instalações, a extinção de rotas e de postos de trabalho, vi o desmanche do transporte de cargas e passageiros... todas estas imagens explicam um pouco o cenário em que nos encontramos na cidade. Vejo uma vila centenária, grisalha, e, infelizmente, pouco consciente de seu patrimônio. Diferentemente dos depoentes de “Nos trilhos...”, a cidade não nos revela sua dinamicidade; há mais paisagens desoladas do que preservação.
Seria a decrepitude da Ferrovia uma metáfora de um provável fracasso da cidade como experiência urbana sensível e consciente de si? O que perdemos, neste processo que levaria a ferrovia a se transformar mais em um fantasma do que em um sujeito de nossa história? Em que medida a cidade de Pedro Leopoldo teria, ela mesma, também transformado sem resistência ou entendimento esta história dos trilhos numa figurinha a mais de seu álbum de coisas sepultadas?
Não é alegre dizer que meu passeio pela ferrovia teria trazido uma estranha sensação de abandono e ruína. Seria plausível comparar os primeiros vincos de velhice que surgem em minha pele àqueles implacáveis e visíveis marcos nos dormentes da estação? Embora não queira pensar a velhice como decrepitude, foi inevitável senti-la por sob meus pés, uma cruel sensação de que o chão em trilhos, descoberto à minha volta, pudesse determinar um estado de espírito povoado pela desolação frenética do urbano.
Embora lembrada com ternura e vigor pelos trabalhadores, a Ferrovia que vemos hoje em Pedro Leopoldo não se realiza como paisagem bela. Mais uma vez, vejo-me diante de uma estética da destruição e, espero, não seja este mais um indício de uma ética da decrepitude da cidade. Como na poesia do livro, os dormentes não dormem jamais: eles costumam gemer quando por sobre eles passeia uma mulher sensível de meia idade, mas capaz de sentir a história ouvindo ruídos   ressentidos de madeira podre.

Artigo publicado originalmente no Jornal AQUI, Pedro Leopoldo, em agosto de 2007. Direitos autorais reservados.
Júnia Sales
Enviado por Júnia Sales em 28/10/2007
Reeditado em 10/11/2007
Código do texto: T713815

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Sobre a autora
Júnia Sales
Pedro Leopoldo - Minas Gerais - Brasil, 49 anos
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Júnia Sales