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Badô


Badô, por exemplo. Lembrei-me dele ao deparar com a foto de um pobre-diabo morto a pedradas em Madureira. Um avião do tráfico de drogas, de acordo com o jornal. Assim que Badô foi solto — eram meados de 1968 —, passou a freqüentar a Esquina do Estabaco, em pleno Boulevard dos Tamarindos. Por causa de um roubo de bicicleta seguido de morte, havia pegado trinta anos de cadeia, mas cumpriu apenas a metade. Ficou quinze anos trancafiado só pelo episódio da bicicleta, já que a polícia acabou descobrindo que o comparsa dele é que dera o tiro na vítima. Tinha ido em cana aos trinta de idade, por aí, e quando apareceu entre nós não podia ter menos de quarenta e cinco, na época um quarto de século mais velho do que eu. Em sua temporada carcerária fez o ginásio e o colégio, além de criar uma pequena biblioteca no presídio. Leu uns oitocentos livros e alfabetizou muita gente lá dentro. Vendo-se livre, voltou para Marechal Hermes, encontrou os companheiros de geração já casados, menos acessíveis, e começou a errar um pouco entre várias gerações diferentes, buscando convívio, embora teimosamente arredio a qualquer oferta de emprego por parte dos mais antigos, pois não tinha se encornado nos livros, segundo ele, para aturar salário mínimo ou coisa parecida. Chego a ouvir sua voz: "Podem dizer que estou cagando goma. Cago mesmo." A Esquina, rapaziada nova, o aceitou muito bem, era mais um papo inteligente na parada, mas a maioria dos moradores do bairro não levava muita fé em sua recuperação. (Vejam vocês. Recuperação de quê? De um roubo de bicicleta ou de ter ficado tantos anos preso no meio da bandidagem? Podia ter índole de bandido um cara que só cuidara de livros na cadeia? Bem, não era convidado para coisa alguma, só encontrava refresco na Esquina.) Passei a conhecê-lo melhor, exatamente porque tínhamos esse amor comum pelos livros. E fiz uma descoberta estarrecedora: Salvador (era o seu nome verdadeiro) especializara-se em biografias dos homens mais ricos do mundo. Eram a sua obsessão. Queria saber tudo o que esses homens fizeram para reunir tanto dinheiro, o que faziam com a grana, os bens que possuíam e as mulheres bonitas e famosas que tinham levado para a cama. Era esse o grande assunto de Badô, era essa a sua grande leitura, e, embora numa pindaíba eterna, só abria os jornais para ver os anúncios de mansões à venda, dos melhores restaurantes da cidade e dos suntuosos ternos de tropical inglês brilhante com que se via, em algum lugar do futuro próximo, paquerando uma vizinha nossa que tinha verdadeiro horror à presença dele. Um dia, para minha tristeza, que sempre tentava buscar um pouquinho de ouro puro atrás daquela obsessiva mania de grandeza, percebi que toda a turma já começava a chamá-lo de Onassis, sem paciência com a incorrigível onda de bacana do outro. Como não aceitava salário baixo, não tinha onde morar nem podia mais recorrer aos seus velhos amigos de infância e juventude, conheceu gente nova e passou a vender maconha para os traficantes da área. Um dia embolsou uma grana preta, deu uma calça-arriada no chefão e sumiu do mapa. Mas como o mapa dos traficantes possui detalhes de que a gente nem desconfia, o encontraram numa casa de praia com uma loura de arrebentar shopping center e acabaram com ele, a pauladas. A loura? Não sei o que fizeram com a loura.

[28.10.2007]

Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 28/10/2007
Reeditado em 28/10/2007
Código do texto: T713859

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 69 anos
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