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Leite com piaba ou com soda cáustica?

Conheço a história de umas piabas encontradas no leite entregue por produtores de Pedro Leopoldo, MG, a uma cooperativa de Belo Horizonte, nos idos dos anos 60, quando meu saudoso avô Aristóteles estava à frente do recém-criado “Direto”. O Direto era um caminhão que cumpria a entrega da produção de leite da cidade à cooperativa de BH, quando aqui não havia cooperativa ou algo parecido e teve como um de seus fundadores exatamente o meu avô Tote.
Pois reza a lenda que num dia de entrega ficaram no coador umas graúdas piabas. Todo leite recebido naquela cooperativa era coado e pesado logo na entrega e também recebia avaliação de acidez. Dizem que um pequeno fazendeiro, para fazer quantidade, vinha completando o leite com água do Ribeirão próximo. Pelo que sei, o tal incidente não chegou a desmoralizar o leite da cidade, mesmo porque a água do Ribeirão era de ótima qualidade. Nas piabas é que residia o problema. O fato é que, verdadeiro ou  não, este caso é emblemático, ainda mais num tempo em que, ao invés de água do Ribeirão (atualmente imprestável para tal finalidade), vemos colocarem-se água oxigenada e soda cáustica, além de bicarbonato de sódio.
E você, preferiria beber leite com piaba ou com soda cáustica? Se fosse nos anos 70, eu iria preferir leite com água do Ribeirão da Mata. Mas, se fosse hoje, eu preferiria beber com soda cáustica mesmo, porque as águas dos Ribeirões de PL não se prestam mais a qualquer uso doméstico, inclusive para estes curiosos usos. E piabas, infelizmente, quase não há.
A história do leite em PL marca bastante minha própria história pessoal. Meu pai, Leonardo Néri Pereira, tinha uma “linha de leite”, um trajeto de entrega do leite por litro de casa em casa, da Fazenda do Barreiro à Cooperativa de PL. Eu tinha oito ou nove anos nos anos 70 e ia com ele para dar troco, anotar débitos e também para fazer o depósito do dia na Caixa Econômica Estadual. Durante quase 6 anos esta linha fez parte da minha vida, saindo de casa às seis da manhã para finalizar quase ao meio dia, sendo que tínhamos folga apenas às sextas feiras da paixão. De modo que conheço boa parte das famílias antigas do Bairro São Geraldo, por exemplo, e chego a reconhecer hoje, quase 30 anos depois, algumas senhoras que me apareciam cedinho da porta da caminhonete de camisola com suas vasilhas de leite; hoje elas estão bastante grisalhas, tal como já também estou.
Naquela época não havia ainda leite de saquinho ou de caixinha longa vida, e as crianças tinham clara consciência de que o leite vinha das vacas e não das estantes de supermercado. Não havia também este tal procedimento chamado pasteurização, fervia-se o leite com um pouco de sal (como me ensinou minha Tia Dôra) e estava pronto para o consumo.  Com um gosto inigualável, aliás.
Os tempos mudaram, o leite também. Os leites ganharam procedimentos, sabores, regras, aditivos e “outros bichos mais”. Uns poucos sujeitos ainda vendem o leite de porta em porta em Pedro Leopoldo e o fazem a duras penas. Não há aqui saudosismo barato, talvez uma esperança ecológica, como chamou a atenção o Gisnaldo, meu marido. Há também uma lembrança do gosto amável de um alimento que povoou minha infância, constituiu toda a história de minha família paterna e que encena, atualmente, uma das mais curiosas histórias das manipulações dos alimentos modernos, apresentando-nos a inusitada mistura de leite com água oxigenada.
Chego a me inquietar pensando de que nos alimentaremos no futuro.
Minha aposta, talvez meu desejo, é de que viéssemos a cumprir um futuro ecológico. Num tempo de fim dos recursos naturais, crise dos valores e dos víveres, nós nos alimentaremos de leite fresco e cultivaremos nossas amizades. Talvez até criaremos uma vaca no quintal, como preconizou Chaplin em Tempos Modernos. Talvez  ainda voltaremos a andar de carroça e veremos o retorno de ofícios rústicos, poderemos, quem sabe, servir aos amigos uma suave coalhada tal como o fez durante sua vida inteira minha avó Aurora Neri, uma centenária que poderia ficar boquiaberta se contássemos a ela os atuais descaminhos do leite.

Artigo publicado no Jornal AQUI, Pedro Leopoldo, outubro de 2007.
Júnia Sales
Enviado por Júnia Sales em 29/10/2007
Reeditado em 10/11/2007
Código do texto: T714458

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Sobre a autora
Júnia Sales
Pedro Leopoldo - Minas Gerais - Brasil, 49 anos
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