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Eu quero saber onde vou encontrar um pai igual ao meu.

 

               No conto O caminho de Sbruch de Isaac Babel, uma mulher pergunta: Eu quero saber: Onde vou encontrar um pai igual ao meu?

 

                   Eu também faço essa pergunta, a poucos dias do dia que marca os muitos dias em que ele morreu. Mas não faço essa pergunta por que considero o meu, um modelo de pai. Pergunto isso porque ele era o meu pai e portanto era único. Todos os pais são únicos para cada um de seus filhos, mesmo quando têm muitos, como era o caso do meu. Ele foi especial para mim, diferente do pai que foi para cada um de meus irmãos, embora eu saiba que foi especial para todos  eles, de forma diferente da minha.Cada um tem as suas lembranças e as suas  não lembranças, fatos que contribuíram para fazer de nós quem somos.

 

                   Quando criança eu não dormia enquanto ele não chegasse da rua. Eu me deitava no sofá da sala e fingia estar dormindo para que ele me levasse para a cama. Se estava em meu quarto o rádio ligado era um convite para que fosse desligar.Se tinha medo durante a noite, bastava chamar”pai, quero água”, mesmo que a sede pudesse esperar. Quando ia para o colégio interno era ele quem me levava. Me lembro de uma viagem especial, ele, meu tio Chiquito que também ia para o colégio, eu e o motorista, em uma longa noite chuvosa, assombrada por cães que nos seguiam pela estrada, cada um escondendo do outro o medo que sentia.

 

                   Não sei se ele me amaria mais do que me amou se eu não fosse quem eu sou. Mas eu senti esse amor incondicional por toda a minha vida. O orgulho que ele sentia de mim era visível. Mas também era visível a decepção que ele sentia por eu não querer seguir os passos que ele traçara para mim, mas sim os meus próprios passos. Dele herdei muitas coisas. As feições físicas, embora eu ansiasse por me parecer com a família de minha mãe. Queria ser ruiva, salpicada de sardas, e quando perdi o juízo pintei meus cabelos de vermelho. Não tão vermelho, mas algo capaz de enganar os meus sonhos. Minha tia diz que herdei também a bondade. Isso é ela quem diz, não eu. Ele era um homem bom, mas acho que eu nem tanto. Não sou assim uma tão boa mulher, mas deixo que pensem que sou. Herdei dele uma estrela solitária no lugar do coração. Sou botafoguense até hoje quando nem me interesso tanto assim por futebol. Herdei o gosto pelas coisas da política embora fingisse que não enquanto ele era vivo. A vida na política destruiu seu casamento e afetou minha vida. Um pouco mais a esquerda do que ele, hoje faço o que ele sonhava que eu fizesse. Mas de forma indireta, porque não me envolvo tanto. Herdei a honestidade, embora minha mãe reclame esta parte, como se fosse dela. Também é. Mas hoje estou falando é dele. Porque são as lembranças dele que estão em meu coração. Todas as vezes que como uma maçã, daquelas bem grandes e vermelhinhas, é dele que me lembro. Ou então um chocolate batom, mas não era o batom, era um semelhante. Acho que se chamava Refeição e era envolvido em papel preto. Quando viajava para Barra Mansa ele sempre trazia os bolsos cheios. Eu me lembro de meu pai quando vejo a Banda passar.Músico de sete instrumentos, isso dele não herdei, ninguém herdou.Eu me lembro que foi ele quem foi em minhas formaturas, minha mãe estava sempre ocupada cuidando de mais uma criança. Eu me lembro de todas vezes que o acompanhei ao médico, todas as vezes que fiquei com ele no hospital, eu me lembro de quando morreu. Eu me lembro de quando meu irmão morreu, na véspera de seu aniversário.Eu me lembro de quando minha irmã Regina nasceu, e ele nos levou para passear, para nos afastar de casa, prometendo que quando voltássemos teríamos uma surpresa. Eu me lembro dele de trás para frente, de frente para trás, os tempos se misturando como se fosse um tempo só. Eu me lembro dele todos os dias quando vou na Fábrica de Pão que ele me deixou e vejo na parede do escritório os retratos que eu mesma coloquei lá. O Zé, que ele já encontrou na Padaria quando comprou, e que adotou como filho do coração, quando estamos em situação um tanto quanto precária diz; esquenta não, Maria. O Sô Geraldo dá um jeito nisso pra nós. E não é que sempre deu? Então me digam: Onde é que eu vou encontrar um pai igual ao meu? (28/10/07)     

 

 

 

 

 

 

Maria Olimpia Alves de Melo
Enviado por Maria Olimpia Alves de Melo em 29/10/2007
Reeditado em 29/10/2007
Código do texto: T715290
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Maria Olimpia Alves de Melo
Lavras - Minas Gerais - Brasil
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