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PEQUENA CRÔNICA PARA OS MORTOS

De repente me dei conta de uma cena surreal no meu carrinho de compras: entre um pouco de banana prata, pêssegos, cebolas, tomates, berinjelas, batatas, um maço de velas! Velas das Almas – achei apropriado o nome e comprei aquelas. São para os mortos amanhã, não para os mortos de amanhã! Para os mortos amanhã, no dia deles.
- Por que surreal? – Porque eu as comprei deliberadamente para os mortos, logo eu que não acredito na existência dos mortos e, também, compro velas em outros dias normais, a gente nunca sabe... Em poucos anos já derrubaram, por duas vezes, torres de transmissão por onde passa a única energia elétrica que abastece as cidades ao longo da Br 163. Foi o caos e até hoje a PF não descobriu quem foram os vândalos, mas, isso não vem ao caso agora, a menos que derrubem outra torre do Linhão, como é conhecia a tal rede de transmissão por aqui...
Como eu ia dizendo, compro velas e nem me dou conta se elas serão acesas para os vivos ou para os mortos, ou para suprir alguma eventual falta de energia elétrica, embora tenhamos aquelas lanternas que acumulam energia para algumas horas de luz quando a energia cai, acho interessante acendermos as velas, a minha infância foi muito iluminada por elas, foi repleta delas, além do Aladim à querosene, mais tarde, o lampião à gás;  me vejo nas pupilas dos meus filhos... A magia da chama, cera derretida, queimadas nos dedinhos... Eu já chamusquei os meus cabelos e era o campeão em derrubá-las durante o Terço – só para os não iniciados, o Terço é uma reza ritual dos Católicos, muito rezada em família, principalmente aquelas que eram compostas de pais e mães, tios e tias de crianças na mesma idade que eu, naquela época: quando não faltava naturalmente a energia à noite, desligava-se a bendita e acendiam-se as bentas – sim, normalmente elas eram previamente benzidas na Igreja... E, todos se punham de joelhos – sim, de joelhos! Escorados os cotovelos no acento de alguma cadeira, o pai puxava a reza começando uma oração muito conhecida até um pedaço dela e dali para frente os demais a continuavam em coro. Depois de umas tantas rezadas, talvez a primeira das outras dezenas que viriam, e eu já me cansara de ficar de joelhos e estava cutucando uma das velas diante da capelinha da Nossa Senhora, a reza soava mais ou menos assim aos meus ouvidos de criança:
 -avmariacheiadegraçaosenhoréconvoscobenditofrutodovossoventrejesuuus... E o coro atacava uníssono: -Santamariamãededeusrogaipornósospecadoresagoraenahoradanossamorteamém!...
Se fosse nos dias de hoje, a Sofia veria alguma coisa encantada na chama, o Marcus queimaria o dedo, no mínimo, e a Juliana certamente derrubaria a vela, mas, o mais estranho seria eu puxando a reza, isso sim seria surreal, sou tão alheio ao meu catolicismo de berço que até já pensei em pedir a minha excomunhão da Igreja para não ficar ali fazendo peso morto, atrapalhando as estatísticas do Vaticano...
Estou tão sem vontade de falar no dia dos mortos que vou parar por aqui e dizer o que eu queria realmente ter dito desde o começo; eu não ia escrever nada, nem contar das velas que comprei, não fosse um morto fresco entrar em cena, sim, fresquinho, fresquinho: acabou de apitar na curva, lá nos Estados Unidos, o piloto que soltou a primeira bomba atômica sobre os humanos. A notícia deu conta ainda de que ele pediu para ser cremado pois não queria ter sepultura, tinha receio de que fosse alvo de manifestações dos vivos... Deve ser mole ser queimado depois de morto o corpo, mas, pergunte se é refresco ser torrado o corpo enquanto se está dentro dele... - Obedecia ordens... – Ah, os Generais! Como eles gostam de matar... Os das Democracias e os das Ditaduras também, nisso eles são exatamente iguais...
Amanhã é o Dia dos Mortos, prefiro dizer o Dia De Nem Todos Os Mortos, alguns só passaram para a outra dimensão, mas, continuarão os mesmos... Os mortos legítimos, aqueles que realmente vivem na outra dimensão, devem achar um saco terem que receber essa gente que tem medo de não verem até mesmo o velho corpo apodrecer em paz.
Chico Steffanello
Enviado por Chico Steffanello em 01/11/2007
Reeditado em 28/11/2007
Código do texto: T719738

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Sobre o autor
Chico Steffanello
Sinop - Mato Grosso - Brasil, 59 anos
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