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CARTAS X E-MAIL

Cartas x e-mail

Algum tempo atrás, fui passar uma semana numa fazenda cafeeira do Sul de Minas com umas tias já bem velhinhas, 80 anos pra lá. Fazenda com grandes terreiros para secagem de café. Perto da Casa Sede um riachinho, desviado para fazer a lavagem do café que vem da panha cheio de folhas. Suas águas reverberam nas pedras fazendo um agradável barulho das águas. A tia trata com fubá centenas de canários-da-terra que colorem o terreirão e quebram o silêncio com seus trinados.
             Sabendo da visita, manda preparar as famosas quitandas mineiras: broinhas de fubá, biscoitos de polvilho, bolachas trançadas, pamonhas, bolos de milho, queijo fresco de minas que não podia faltar, café fresquinho a toda hora, a mesa fica posta o dia inteiro.

Entre as tias, a dona da fazenda e mais quatro  irmãs uma delas a minha mãe, a alegria proporcionada pelo reencontro era contagiante. Alugaram uma Kombi para eu levá-las a visitar a região atrás dos primos sobreviventes . E tome café e come quitandas e desenterram defuntos a cada visita realizada.

Um dia, sabedoras que minha tia guardava todas as cartas que tinha recebido, pediram para lê-las. Ela mandou a empregada buscar um saco de ráfia, usado para embalar café cru, cheio pela metade. Achei cartas históricas sobre a família.

Uma delas era um relato do meu avô ao meu bisavô, contando sobre sua chegada ao Rio de Janeiro com uma tropa de burros comprados pelo interior de Minas, que seriam vendidos ao exército brasileiro para puxar canhões na Europa, por ocasião da 1ª guerra mundial, quando souberam que tinha sido celebrada a paz! Fazer o quê com estes animais? Toda economia investida neste projeto... A Paz ansiada e celebrada pelo mundo todo era catastrófica para os meus antepassados. A vida é assim, os fatos se sucedem inexoráveis às nossas aflições.

Entre outras,  uma de parabéns para meu pai por ter formado o primeiro neto de meu avô como engenheiro. A família da minha mãe era imensa, ela e treze irmãos. Os netos do meu avô chegam perto de cinqüenta. Em 1967, formar-se em engenharia era um fato notável. Outras cartas relatavam as gravidezes das tias, os primeiros namorados das filhas, infortúnios, desempregos, secas, geadas no Paraná, que animavam os cafeicultores de Minas em razão do aumento do preço do café. Tristezas de uns, alegrias de outros, isto dentro da grande família, pois ela se espalhou pelo Brasil afora.

Lembro ainda, quando criança, um tio pediu para eu levar uma carta para seu Administrador numa fazenda cerca de 100 km de Londrina. Eu  tinha que pegar ônibus, fazer baldeações, na cidade mais próxima da fazenda  alugar um jeep para chegar. Ele me  entregou a carta em mãos, naquele tempo  “em mãos” era entregue aberta. Era falta de educação entregá-la fechada ou lacrada,  mais falta de educação ainda era lê-la, mas isso eu não sabia. Eu li a carta e não vi nada de mais nela, com certeza tinha alguma mensagem cifrada, este tio era por demais misterioso.

Cartas portadoras de emoções, alegrias, notícias boas e más, eram aguardadas ansiosamente pelos amantes, pelas mães com filhos no estrangeiro, pelos amigos distantes. Cartas telegráficas de filho estudante pedindo dinheiro pro pai: “ Pai, manda grana. Um abraço. Seu filho necessitado."

Cartas, o que serão delas? Hoje com a internet, com o barateamento das comunicações nacionais e internacionais, estarão fadadas ao desaparecimento? Acontecerá com elas o mesmo o que aconteceu com os banquinhos na calçada para conversarmos com os vizinhos?

Hoje recebo e-mails, tenho amigos que não os vejo há mais de 10 anos,  que me mandam e-mails, não escrito por eles, isto seria quase uma carta, mas e-mails com mensagens lindas de escritores famosos como Veríssimo, Gonzaguinha, Vinicius, com dezenas de destinatários. Não gosto disso, gosto de exclusividade.

Quero relembrar as nossas vidas vividas juntas, nossas emoções sentidas, quero compartilhar meus problemas com eles, quero repartir alegrias e tristezas. Não precisam ressaltar o valor da amizade com um poema lindo com música ao fundo, isto eu sinto com a ausência de cada um deles.

Através de cartas, que sejam lá cartas eletrônicas, podemos dizer aos queridos amigos o quanto eles foram importante para nós, sem ficarmos constrangidos. Podemos elogiá-los, sabemos o que os fará sorrir ou derramar algumas lágrimas.

Abaixo as mensagens pasteurizadas, enviadas as centenas de destinatários e ainda algumas com obrigação de retorno, “se não o bode preto vai adentrar a sua vida.”

Abaixo as recomendações de vida saudável: não beba isto, não beba aquilo, evite carne vermelha, faça exercícios, feche a torneira...

Quero receber uma carta selada de um amigo, amiga, do passado, do futuro, do presente, do futuro pretérito, do passado perfeito ou imperfeito. Carta selada, envelope simples com as margens verde-amarela, e preferencialmente escrita à mão. Quem se habilita? Prometo que retorno.

Ah! Antes que me esqueça, meu e-mail,... opa meu endereço:

Rua dos Lambaris 123 – Bragança Paulista – SP
CEP 12.924.200 –
    Eu:  Defranco

Ok! Você não é do meu século? Então pode mandar uma carta eletrônica, mas tem que ser escrita por você, para o e-mail: dermeval.frossard@gmail.com
Defranco
Enviado por Defranco em 02/11/2007
Reeditado em 09/07/2013
Código do texto: T720201
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Defranco
Bragança Paulista - São Paulo - Brasil, 63 anos
174 textos (24334 leituras)
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