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APEGO

  Segunda-feira, primeiro dia de trabalho pós-licença maternidade. A criança não está nem aí contigo. Ta lá tranqüila dormindo no bercinho e você? Você vai até a porta e volta com 456 recomendações para a babá. Então você pega a chave do carro e vai até a porta e quando chega ao tapete de entrada volta para colocar a mão na frente do nariz da criança para ver se ela está respirando. Com dó se afasta devagar sentindo que não vai conseguir sair dali nunca mais. Mas em algum momento você sabe que está atrasadíssima e que precisa do emprego para sustentar aquele bebezinho que ali está e então finalmente você se enche de coragem e sai.

   Você sai. Mas seu coração e sua cabeça ficam. E quando eu falo ficam, é porque ficam mesmo. De maneira que você está recebendo cumprimentos dos colegas por tanto tempo sem ver a tua cara e você não está nem aí com nenhum deles, quer mais é voltar para casa de uma vez.

   No meio de uma reunião cujo assunto é importantíssimo, você se pega pensando na carinha do seu filho naquela hora que você estava amamentando e ele segurou seu seio com a minúscula mãozinha e você chorou de emoção. A reunião? Que reunião? Do que eles estão falando mesmo? Preciso sair daqui discretamente e ligar para casa para ver se está tudo bem.

  Então você está arrumando sua pasta para sair correndo dali logo de uma vez e alguém chega dizendo que prepararam uma recepção para comemorar a sua volta. Você não é uma troglodita insensível que vai sair numa hora dessas não é mesmo? Você fica mais um pouco então e mesmo com a cabeça em casa você tenta se divertir com os amigos. O seu celular toca e o seu coração dispara. Será que é lá de casa? Meu Deus! Aconteceu alguma coisa!
- Alô! (a essa altura o coração já está batendo na boca)
- Dona Joana é a Creusa!

  A Creusa está calmíssima ao telefone falando praticamente em câmera lenta ao contrário de Dona Joana.

- Eu sei Creusa, vai diz logo de uma vez, aconteceu alguma coisa, fala logo!
- Eu queria pedir para a senhora na hora que a senhora vier daí pra comprar uma pomada para assaduras.
- Meu Deus, ele está muito assado? Ta vermelhinho? Ele está chorando Creusa, o que está acontecendo?
- Nada não, ele está bem, mas a pomada está querendo terminar.
- Mas Creusa ele está chorando, eu estou ouvindo daqui (nisso você já está abrindo a porta do carro e saiu sem se despedir de ninguém)
- Não se preocupe Dona Joana, é normal esses chorinhos de vez em quando, é que eu deixei ele de bruços um pouquinho para fortalecer o pescocinho e ele está fazendo charminho comigo
- Como assim de bruços? Eu deixo ele dez segundos de bruços e viro o bichinho porque ele não gosta. Creusa, pegue essa criança imediatamente no colo! Agora ou você está demitida!
- Dona Joana se acalme! Ele até já parou de chorar, está no meu colo. Está tudo bem.
- Creusa eu preciso desligar, mas estou indo pra casa, chego em poucos minutos, pare de virar meu filho de bruços, pelo menos longe de mim (e desliga o telefone).

  Você fica mais tranqüila porque no fundo sabe que não precisava tanto escândalo por causa disso, mas finge que é apenas uma mãe zelosa no primeiro dia pós – licença maternidade.

  Então o trânsito está uma droga e resolve não colaborar com sua vontade de chegar em casa. Além disso você se dá conta foi uma grossa com a Creusa e que abandonou seus colegas na festa que eles prepararam para você. Pega o celular para ligar de volta para o trabalho para inventar uma desculpa esfarrapada e a bateria termina.

  Relaxe! Isso está só começando e com o tempo você não precisa ficar tensa com a distância dos seus filhos. Tem momentos que você adora que os padrinhos passem o dia inteirinho com eles enquanto você vai ao shopping e esquece que tem filhos. O apego nunca terminará, ele só vai ter momentos diferentes. Afinal, o apego é tanto que nunca mais você consegue ir ao banheiro sozinha. Só se estiver no trabalho. Ou viajando sem eles.

  De uma coisa eu tenho certeza, é o apego mais maravilhoso que alguma pessoa pode sentir na vida.




Renata Miranda
Enviado por Renata Miranda em 02/11/2007
Reeditado em 02/11/2007
Código do texto: T720618

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Sobre a autora
Renata Miranda
Caçapava do Sul - Rio Grande do Sul - Brasil, 37 anos
44 textos (10922 leituras)
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Renata Miranda