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O PASSAGEIRO


Após a marcha de uma madrugada fresca, amanhece na grande metrópole. Os primeiros sons da cidade, aqui e acolá, comprovam que ela está saindo do sono, despertando para um novo dia. A cidade começa a agitar-se; é a hora do rush. O congestionamento de sempre, acontece. O trânsito flui lentamente. Pedestres andam apressados num vaivém frenético. Os ônibus, verdadeiros veículos transportadores de sentimentos conflitantes, trafegam abarrotados. Motoristas, em seus carros particulares, atravessam ruas e avenidas à beira de um estresse. Confusão costumeira, caos do dia-a-dia; é a rotina.
Dentre este necessário frenesi, em nome do progresso, um ônibus obedece a seu itinerário em direção ao centro da cidade. Está lotado. A maioria dos passageiros se conhece ou já se viram, pois o trajeto em direção ao centro da cidade e o horário do ônibus é ponto comum entre eles. Os pontos de ônibus estão cheios. Ao se aproximar de um deles o motorista percebe que alguém faz um sinal. De pronto, o condutor encosta o coletivo. Homem solitário entra no ônibus, e chama a atenção de todos: macilento, de óculos escuros, na cabeça um chapéu à “Indiana Jones” e, o motivo de toda suspeição: trajava, numa manhã quente de verão, um sobretudo cinza e em punho uma mala preta. De soslaio o “ônibus em peso” olha para aquele misterioso passageiro. Alguém sussurra, questionando:
- O que será que ele carrega na mala?
Silêncio... Os olhos de todos se voltam para a mala do misterioso viajante. Uma voz, tímida, nervosa, acrescenta:
- Este sujeito não deve ser boa gente. Nunca o vimos por aqui. Será que carrega alguma bomba? Será que está armado?
Novamente o silêncio toma conta do ambiente. O misterioso passageiro se coloca em pé, próximo ao motorista. Um casal, sentado a pouca distância do misterioso passageiro, dialoga. A mulher, em voz baixa, fala ao ouvido de seu companheiro:
- Será um assalto? Ou será um seqüestrador?
O acompanhante daquela mulher procura acalmá-la.

Os ainda sonolentos não conseguem retornar ao cochilo de sempre, como é o costume de todas as manhãs. Alguns deixaram de lado a leitura do jornal; não há clima para relaxar. O ônibus segue seu destino. O centro da cidade se aproxima. Uma voz angustiada declara:
- Tomara que este ônibus chegue logo.
Automaticamente todos confirmam o anseio geral balançando a cabeça de modo afirmativo. O misterioso passageiro permanecia no seu posto. O sinal de trânsito fica vermelho. O ônibus para. O misterioso passageiro se move, abre a mala. O clima no ônibus fica tenso. O casal se abraça com mais força. O cobrador, ao lado do misterioso passageiro, não se atreve a lhe dirigir a palavra: emudeceu. Uma mulher, assustada, em pé, perto do misterioso passageiro, balbucia para uma adolescente que a acompanhava:
- E agora?
Um jovem, aparentando vinte cinco anos, esperando acontecer alguma coisa, diz:
- É agora!
O motorista, sem perceber, ao sinal verde, pisa fundo no acelerador. Pensa na família, na mulher, nos filhos; um filme roda na sua mente...
Do interior da mala o misterioso passageiro retira algo. Muitos não conseguem mais disfarçar o desespero, tremem e temem. O misterioso passageiro, empunhando aquela “coisa” fala algo ao motorista que, após recebê-la das mãos do estranho, balança a cabeça como a concordar com o que lhe foi falado. O clima no coletivo fervilha. O misterioso passageiro volta sua atenção para o interior do ônibus. Lentamente tira o chapéu. Os viajantes rotineiros daquele coletivo estão como que paralisados. Com a mesma velocidade tira os óculos. Pânico geral. Neste momento todos olham abertamente para o misterioso passageiro que, de semblante fechado, se faz ouvir:
- Bom dia!
Abre o sobretudo... Os passageiros tomados de torpor não respondem ao cumprimento do desconhecido. Mas, ao mesmo tempo em que abria a vestimenta o misterioso passageiro, com um sorriso largo e cativante, dizia em alto e bom som:
- Meu nome é João, tenho autorização do motorista e peço licença a todos para demonstrar a qualidade da minha mercadoria.
Quando terminou de abrir o sobretudo todos observaram que na sua parte interna só havia bugigangas, pois o misterioso passageiro não passava de um vendedor ambulante, e se vestia daquela maneira para não ser reconhecido pelos “rapas”.
O vendedor ambulante não entendeu porque, naquela manhã, naquela viagem, ninguém comprou um item sequer de sua mercadoria. Só quem ganhou um agrado foi o motorista.


   
Paulo Cezar Santos
Enviado por Paulo Cezar Santos em 02/11/2007
Código do texto: T720824

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Sobre o autor
Paulo Cezar Santos
Aracaju - Sergipe - Brasil, 60 anos
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Paulo Cezar Santos