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Conflitos

Hoje amanheceu chovendo. Tranquei-me no quarto, fechei a janela como nunca faço. Acendi a lamparina que estava guardada no armário há dias. A fumaça tomou conta dos espaços ociosos ali existentes como uma barriga faminta. O cheiro de óleo queimado espalhou num instante, o fogo havia alastrado por todo o pavio. Meu corpo em transe, estendido no dorso do chão, era uma serpente rastejante sobre os tacos apodrecidos e carcomidos pelo vasto tempo de uso e desuso. Meus heróis, diferentemente dos de Cazuza, não estão mortos, muito pelo contrário.

A chuva está forte, muito forte! Os sons estridentes dos granizos açoitando as telhas, abafam meus doloridos gemidos, escondem de alguma forma minha dor e minha quase morte. Nada disto é significativo neste momento. Estou revendo todos os meus passos passados, na esperança vulgar de que num futuro incerto, eles sejam mais cautelosos e menos afoitos.

Tenho dito a mim mesmo que estou bem, que tudo vai passar, que o céu é logo ali e que o inferno de Dante, não é mais que um quarto escuro e mofo onde me tranco. É noite lá fora. Sei disto porque o lampião desapareceu, apagou. Pelo buraco da fechadura da janela que perdeu a chave, vejo uma réstia de luz que vem do poste que fica do outro lado da rua. Ela entrou vazando o espaço como uma lança que se desgarrou de um velho arco, há séculos. O relógio grudado na parede está doente. Demonstra sinais de cansaço, de velhice... está repleto de rugas. Sua madeira perdeu o viço, os ponteiros tombados parecem terem perdido a batalha contra o tempo. O cuco, quem diria! Está lá estendido no chão, como se nada houvesse acontecido. Como se não fizesse parte do contexto ou dos atos que ainda restam.

Sempre disse que viver e morrer tem a mesma envergadura, a mesma textura, a mesma longevidade. Às vezes digo no final da tarde para o meu coração: “mais um dia”. Ele nada responde, e nem pode. Mas do fundo do poço que fica à beira do muro, vem o eco de uma voz feminina: “menos-um-dia, menos-um-dia”. Infelizmente não sei se é mais um dia ou menos um dia. Mas minha psicóloga, uma mulher pra mais de metro e meio, insiste comigo dizendo veementemente que é mais um dia.

De forma fulminante a chuva parou. Pelo menos é o que parece, não estou mais ouvindo o barulho dos granizos nas telhas, nem o assovio dos ventos que entravam pelas frestas das tábuas que compõem a estrutura principal da caquética porta. O silêncio é mórbido e ao mesmo tempo, muito frio. Sinto fome e medo, mas mesmo assim, não devo gritar. O vizinho do lado direito não sabe o meu nome, o do lado esquerdo parece ter o rei na barriga, o da frente, coitado!, apanha da mulher dia sim, dia não. Meu cachorro está feliz da vida, late sem saber que está com os dias contados. Isto é muito triste, me deixa abatido, derrotado por não poder fazer nada por ele. Pior, isto não significa a sua liberdade.

Gostaria de morrer no inverno para que o frio congelasse meus ossos gradativamente e, que meus pertences, onde incluo meus escritos, fossem distribuídos nos manicômios ou em casas de prostituição comprovada. Provavelmente algum débil como eu, ou uma prostituta menos requintada, pudessem aproveitar meus livros para aquecer o corpo nas noites frias e densas. Sempre me vi como um louco, um prostituto de minhas próprias angústias.

Ah, só me resta abrir a janela, olhar para o mundo e ver se algo mudou. Caso nada tenha sido modificado, vou voltar para o catre, vou acender uma nova lamparina, vou contar até sessenta e nove, vou gozar a vida como a morte me ensinou.
Pedro Cardoso DF
Enviado por Pedro Cardoso DF em 02/11/2007
Reeditado em 20/11/2007
Código do texto: T720890
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Pedro Cardoso DF
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 69 anos
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Pedro Cardoso DF