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Está sem amigo?

 
Eita, onde chegamos nós, esses frágeis seres humanos tão acostumados com poluição, quadrilhas, desemprego, mensalão e tantas outras misérias do cotidiano que escolhemos, preparamos e estamos consumindo!


A novidade da praça social agora é alugar-se um “amigo”, pagando-lhe, é claro, para usar de sua experiência com bate-papo e preencher nossa solidão, presente do mundo, moderno e inóspito, que enchemos.


As ruas violentas têm posto o homem dentro de suas casas; a televisão tem deseducado nossos jovens espectadores; baniu-se de vez a convivência familiar e entre amigos, porque, para se sobreviver no mundo atual, carece-se ser econômico, ajuntar riquezas, diminuir gastos e evitar a exposição pública para ficar menos vulnerável a assaltos, seqüestros relâmpagos, etc.


E nesse silêncio imperdoável vamos nós, remando em seco mar, sem leme que nos sirva e, quanto à direção e ao sentido, não se vê uma percepção viva do que realmente fazemos e para onde estamos indo e se vamos chegar a algum lugar sóbrio.


Se as “carpideiras” já nos são trabalhadoras estranhas, imaginem comprarmos amizade? Eu lhe pago e peço para você dizer o que eu quero ouvir e, assim, preencher o meu tempo de solidão e abandono social! Os conversadores profissionais estão cobrando entre 50 e 300 reais a hora. Afora a criatividade, o que fica de resto é banível, desnecessário, sintético. Quem já se viu comprar um amigo, alugar, melhor dizendo?


Os fatores que nós devemos invocar são: solidariedade, passeio público, amizade, reunião social, amor ao próximo. A praça pública sempre foi lugar para bate-papo e construção de amizades.


O governo precisa consertar seus erros mais imperdoáveis, como a insegurança pública, o mata-mata, as balas perdidas nos grandes centros urbanos, o crime organizado, isso, sim, abriria novamente as ruas e suas praças para o reconvívio social do homem buscador de amizades, fazedor de amigos. Até o aumento sustentado dos investimentos públicos ajudaria muito na resolução desse caos em que sobrevivemos. Geraria mais emprego e progresso.


Vender-se amizade! Talvez esses que estejam defendendo e executando esse ofício novo sejam os que mais estejam necessitando desse convívio salutar e tenham achado um jeitinho rendoso de resolver-se em seus próprios dilemas, suas amizades faltosas. Quem procura, acha.


Chegamos a um ponto de um crudelíssimo convívio social. Sem segurança não se vai a lugar nenhum. Hoje as ações são maiores e piores do que nos tempos medievais. A realidade virtual tem ofertado aos homens outros divertimentos que comungam com a defensiva vontade de ficar em casa, trancafiados para não serem assaltados e à frente de seus computadores que cada vez mais tomam o lugar dos salutares passeios dos domingos e das visitas domiciliares aos velhos amigos.


Pai mata filho e vice-versa. Toda barbárie é vista hoje sem os olhos assombrados do ontem. Matar é coisa banal, incendiar inocentes vivos é comum ver na televisão, nos noticiários que coincidem com o horário do nosso jantar, essa única refeição que pode reunir a maior parte da família.


Os “Brutus” estão dizimando os “Césares” do cotidiano. Resta-nos apenas ouvir entre as palavras desgraçadas do clamor social a clássica e conhecida frase grega “Kai su, technon?” (Até tu, meu filho?)


Era, no começo, apenas um mal-estar e erupcionou o crime organizado. As ruas vazias evidenciam esse pavor social. Será que esses vendedores de amizades não irão necessitar logo, logo, de suas carpideiras? É difícil acreditar, mas até o convívio social hoje é apocalíptico! Pensar numa firme solução a curto prazo queima-nos as pestanas e seca-nos a goela. Mas devemos pensar ainda mais e tentar por todos os meios achar a solução melhor para esses nossos cruciais problemas da atualidade.


 
 
Paulino Vergetti Neto
Enviado por Paulino Vergetti Neto em 03/11/2007
Código do texto: T721605
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Paulino Vergetti Neto
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 59 anos
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Paulino Vergetti Neto

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