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A Copa do Mundo é nossa?

“A Taça do mundo é nossa, com brasileiro, não há quem possa...” Sejamos sinceros, quem de nós nunca cantarolou esses versos? Acho que essa música é tão conhecida que poderia ser um novo hino nacional. Exageros a parte, eu nunca pensei que viveria o bastante para ver o que foi decidido na última terça feira. A toda-poderosa FIFA decretou que a Copa do Mundo de 2014 será no “país do futebol”. Mas pairava no ar um “q” de dúvida que ficou clara na hora do anúncio.

O presidente da FIFA Joseph Blatter, que fala portunhol muito bem, disse que o Brasil não tinha apenas o direito de sediar o evento, mas também a responsabilidade. E o nosso presidente que não fala nem português direito cometeu uma das suas gafes imperdoáveis, dizendo do alto do seu ufanismo surrealista que realizaremos uma copa para argentino nenhum botar defeito. Além de ter sido uma piada de péssimo gosto, desconsiderou o apoio que recebemos das confederações sul-americanas que aceitaram quase por unanimidade a candidatura única do Brasil. Mas dele eu não esperava uma postura menos vergonhosa.

Eu devo dizer que por um momento até fique feliz com a possibilidade do Brasil sediar um evento desses, que movimenta milhões de Reais e funciona como uma incomparável campanha publicitária para o país, o que em teoria pode gerar empregos e melhorias consideráveis para uma boa parcela da sociedade.

Entretanto o Brasil infelizmente não é apenas “o país do futebol”. O nosso querido Brasil é também “o país da pizza”, “o país da impunidade”, “o país do carnaval”, “o país da diferença social”, “o país do trabalho escravo”, “do trabalho infantil”, “do imediatismo” e talvez o mais preocupante, “o país do futuro, e sempre será”. Então, surge a pergunta naturalmente. Qual será o Brasil que sediará a Copa de 2014? O do samba, o da pizza, o do Deus dará?

Se eu soubesse não escreveria um texto, mas sim um manual de como evitar os erros que certamente iremos cometer, pois isso é a única coisa que há de certo hoje a 7 anos do pontapé inicial. O PAN do Rio nos mostrou exatamente isso. Obras sendo entregues inacabadas com atraso e com orçamentos multiplicados por dez. Sabe de onde saiu o dinheiro? Dos hospitais, das escolas, das rodovias que existem apenas na teoria e não na prática. Ou acham que é um acaso que dois integrantes do alto escalão do atual governo foram hospitalizados na rede privada essa semana?

De todo modo, tudo o que mencionei acima é como bala perdida no nosso dia-a-dia. Não é mais novidade e portanto acho que nem mesmo preocupa ninguém no Brasil, de tão acostumados que estamos com atual e perene situação de caos e desmando. Acontece que nessas últimas semanas, nos deparamos com mais um dos aspectos da nossa intrigante sociedade que apesar de não ser novo, me deu a chance de pensar um pouco em como isso poderia afetar a realização do tão esperado evento.

Voltamos a ser o país da falsificação. Mas dessa vez nos mostramos particularmente desumanos e sem escrúpulos. Estamos adulterando laticínios. Leite e queijo com excesso de água oxigenada e soda cáustica. Eu me pergunto onde está a alma dos brasileiros, (se é que existe alma), para envenenarem seu próprio povo, na sua maioria crianças, em nome de um pouco mais de lucro imediato que nada acrescentará às suas já duvidosas fortunas? Será que fazemos mesmo tudo por dinheiro? Me parece que sim.

Mas não adulteramos apenas o leite das crianças não, falsificamos documentos de todos os tipos, falsificamos, inclusive as certidões de nascimento dos nossos atletas do futebol. E não são apenas os jogadores desconhecidos, temos atletas que foram campeões mundiais pela seleção que correram o risco de ir presos por causa desses atos deploráveis. Não sabia disso caro leitor? E que a própria Taça do Mundo que temos também é uma cópia, você sabia? Chega a ser engraçado. A Taça do mundo não é nossa, mas sim uma reles réplica.

A taça Jules Rimet que o Brasil conquistou após vencer a Copa pela terceira vez foi entregue definitivamente ao Brasil como estava previsto no regulamento. Mas a tão cobiçada Taça foi roubada e derretida, hoje o que temos na sede da CBF não passa de uma reles cópia. Tivemos também os resultados adulterados do campeonato brasileiro de 2005 que sagrou o Corínthians campeão depois de ter sido descoberto um esquema para influenciar os resultados dos jogos. E hoje o presidente do Corínthias tem uma fortuna declarada de mais de 14 milhões de Reais e é alvo de investigação por parte da polícia no Brasil.

Será que tudo no Brasil é uma farsa? Adulteramos documentos, alimentos, remédios, decisões judiciais, contratos, torneios de futebol, títulos, ideologias, partidos políticos, instituições religiosas e até mesmo nossa declaração de independência... Não há absolutamente nada em que podemos confiar no Brasil? Precisamos da cópia autenticada registrada em cartório de todo e qualquer tipo de documento, pois não confiamos em nós mesmos. E se não confiamos em nós mesmos, como é que o resto do mundo irá confiar?

A Copa do Mundo é nossa, será que vamos enganar o mundo inteiro como fazemos com o povo brasileiro? Fiquem de olhos bem abertos, pois no país da lei de Gerson, muita coisa é como Denorex; parece mas não é.

Pra frente Brasil.
Ullisses Salles
Enviado por Ullisses Salles em 04/11/2007
Reeditado em 13/07/2010
Código do texto: T722649

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Sobre o autor
Ullisses Salles
Suíça, 41 anos
220 textos (73786 leituras)
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Ullisses Salles