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ÚLTIMO DESEJO

Enquanto me deixava manusear pelo técnico, em silêncio, lembrava-me de uma reportagem televisiva, de caráter científico, em que cercearam a locomoção de um pequeno coelho que servia de cobaia a pesquisas experimentais, tornando-o paraplégico. Com os olhos esbugalhados, querendo viver a todo custo, o pobrezinho, apenas com as patas dianteiras ilesas, arrastava seu pesado corpo desgovernado sobre a mesa do laboratório. Agora, como parecia com ele! Mas a minha missão era menos digna: não me prestava a experiências para a consecução de antídotos ou descobertas beneficentes à humanidade. E não havia sido imolada. A paraplegia viera de graça, de presente numa noite de festa. Entretanto como queria viver! Tenho consciência de que o corpo físico nada mais é do que uma farda de carne que envergamos para cumprir o nosso desiderato. Por isso a vida é uma curta viagem em que não se pode perder tempo. Até dos dissabores devemos tirar proveito. Quem sabe o coelho ensinava-me uma lição de resistência e crescimento. Teria que aproveitar a oportunidade. Por isso, mesmo depois de expirado o último fôlego de vida, ainda nos resta a oportunidade de servir.

 Após a morte do meu corpo físico, gostaria de que todos os meus órgãos sãos fossem utilizados para, por exemplo, fazer pulsar um coração cansado; dar luz a olhos que nunca enxergaram...

 Queria que até as mínimas partículas servissem de material de estudo aos futuros profissionais da área de saúde. Quem sabe para desenvolver a nanotecnologia, devolvendo a audição a quem nunca pôde ouvir uma música, o zumbido das abelhas, os refrulhos sonoros de um riacho, uma declaração de amor... Quem sabe, esses órgãos inanimados, essas partículas abandonadas, ainda possam contribuir para o estudo e aperfeiçoamento da medicina, criando caminhos e mais saúde para todos. Gostaria que o resto, quando nada mais tivesse serventia, fosse deixado num lugar tranqüilo sob a terra pura, sem concreto, porque assim, ainda serviria de adubo para florescer um gerânio vermelho, símbolo de minha luta pela vida.

A ciência não conseguiu provar a inexistência de Deus. Ele existe! E eu acredito num Deus perfeito, do qual somos a criação. A alma não desce à sepultura, transcende à Casa do Pai. Daqui não levaremos nada, apenas o bem ou o mal que tenhamos praticado. Acredito que já vivemos muitas existências e viveremos muito mais outras. Elas agem em nós feito um processo lapidador, respeitando o livre-arbítrio. A multiplicidade das existências no corpo físico não constitui apenas uma afirmação evangélica, mas uma verdade científica e filosófica, explicada pela Lei do Progresso, claramente estampada nas diferenças sociais, nas doenças congênitas, além de muitos acontecimentos atribuídos a fatalidades. E isso é necessário para que o espírito evolua, tendo por mestres a dor e as muitas experiências que, com certeza, o qualificará para o exercício do amor a si e ao seu próximo. Por isso este é um mundo de provações, próprio para o resgate de erros do passado. Ninguém reencarna sem uma cruz para carregar. É o que se chama de carma que pode ser de ordem física, moral ou financeira.

Com esse entendimento e partindo do princípio de que o Pai é justo, a aceitação do carma reverte-se em escadas para subirmos cada vez mais alto.

Assim, aceitar a reencarnação significou aceitar a mim mesma. Significou a dura tentativa de relacionamento pacífico com o meu corpo paralítico.

Genaura Tormin
Enviado por Genaura Tormin em 16/11/2005
Código do texto: T72296
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
Genaura Tormin
Goiânia - Goiás - Brasil, 71 anos
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Genaura Tormin