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BARBIE GIRL


Domingo no Bosque Alemão em Curitiba. Passo a construção do Oratório de Bach e me aventuro na trilha do João em Maria. O conto de fadas estampado nos murais em torno da trilha seduz os pais com seus pequenos rebentos que aproveitam o encantamento da bruxa, que conta histórias na pequena casa de gergelim no centro do trajeto, com o contato direto com a natureza.

Um passarinho observa atento o movimento à beira do riacho. Abandona os juvenis vôos e fica à espreita dos passos trôpegos dos pequenos humanos.

A trilha encerra com o final feliz da história infantil dos irmãos Grimm. Uma justa homenagem aso imigrantes alemães em Curitiba. Um feliz reencontro de todos os exilados da infância no porto das primeiras narrativas.

A densa vegetação do bosque se abre no Portal Alemão. Entre os arcos, uma multidão de pessoas com trajes esportivos se confunde com um grupo de aproximadamente cinquenta pessoas extremamente elgantes, com vestidos longos e ternos, num desfile contrastante com a informalidade dos pais de final de semana e turistas.

Ao redor, as crianças correm enquanto os adultos descansam sentados na grama. No arco central do Portal, um homem jovem ao microfone pede que os convidados se aproximem e a música “Jesus alegria dos homens” de Bach começa a tocar. O noivo é o primeiro a ser chamado. Desfila por entre os canteiros acompanhado por sua mãe, depois os padrinhos e madrinhas são anunciados e podem compor com as flores um colorido intenso para a tarde ensolarada de domingo.

Um casamento! Alguns minutos de expectiva. Uma charrete se aproxima com a noiva vestida de branco. A carruagem tantas vezes imaginada traz a jovem nubente para a realização do próprio conto de fadas no centro de um ponto turístico.

Antes de atravessar o tapete exposto entre as floreiras com o pai, a música é trocada e a noiva faz sua travessia definitiva ao som de “Barbie Girl” de Kelly key.

“Sou a Barbie Girl
Se você quer ser meu, namorado
Fica ligado, presta atenção
Na minha condição...”

Estranhamento. A insusitada platéia que se estende nos tapetes verdes do bosque não compreende a mudança repentina da música, as crianças adoram e dançam como os trejeitos de Kelly Key, o pastor logo intervém e explica que se trata de uma casal moderno e arrojado.

A realização do conto de fadas universal com uma trilha musical contemporânea... Ser uma barbie girl é mais cobiçado do que ser uma cinderela ou uma bela adormecida... O sonho de consumo é o encontro de um Ken que realize as vontades e não de um príncipe que concretize castelos. As narrativas são simplificadas nas músicas corriqueiras, a materialização do ideal representado nas bonecas da infância e os grandes personagens esquecidos nas prateleiras das bibliotecas.

No portal alemão, uma placa sustenta alguns versos eternos de amor escritos por Johann Wolfgang von Goethe:

“Mesmo longe de tua amada,
como o Oriente do Ocidente,
o coração pode vencer todos os desertos;
em toda parte acharás presença;
para quem ama, Bagdá está perto.”

Saio no meio da cerimônia sem saber qual a música iria imortalizar a saída dos recém-casados. Retorno à trilha de João e Maria e, no sentido contrário, encontro o abandono das crianças na floresta. Penso nos jovens por entre os arcos e, no íntimo, desejo o final feliz de todos os contos: “E foram felizes para sempre. Fim.”


Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 16/11/2005
Código do texto: T72399
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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