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Memórias

Misterioso. Esse sempre foi o melhor adjetivo para o Seo Armando. Sujeito bem apessoado, casado, cheio de filhos e netos, aquele senhor tinha muitas histórias na cabeça. Do alto de seus 78 anos, se orgulhava de ter vivido a vida intensamente e adorava contar algumas de suas aventuras. Mas de uns tempos pra cá, tinha parado com isso.

Os filhos estranharam, os netos reclamaram, mas não havia Cristo que o fizesse mudar de idéia. Dona Lina, sua esposa ficou intrigada. Começou espalhar para toda a vizinhança que o velho estava com Alzheimer. Demorou, mas certo dia aquela fofoca chegou aos ouvidos do Seo Armando.

Ele ficou furioso. Como sua senhora ousava dizer aquilo para a vizinhança? E pior, para a sua família? Mas o Seo Armando não era de briga, ainda mais naquela altura da sua vida. Ele aguentou calado toda a humilhação que passou na feira, quando foi comprar tomates e acabou esquecendo de levar o dinheiro. Aguentou também aquelas senhoras olhando com pena, quando ele parecia estar perdido no meio da rua, exatamente em frente à sua casa. Ficou quieto, sofrendo sozinho, até que um dia, num jantar de família, seu filho não aguentou.

- Pai, acho que o senhor deveria procurar um médico.

- Eu não estou doente.

- O senhor já está quase na casa dos 80…estou falando de um checkup.

- Nenhum médico safado vai enfiar o dedo no meu cu.

- Não estou falando de exame de próstata, pai…o problema é mais em cima.

- O que foi então?

- A mãe me falou de seus recentes esquecimentos…

- Sua mãe está ficando louca.

- Mas não foi ela quem esqueceu o dinheiro na feira…

- Foi só uma vez…

- Também não foi ela quem ficou perdida, mesmo estando na porta de casa…

- Eu estava tomando um ar.

- E pra tomar ar precisa pedir informação?

- Eu só estava puxando papo com a vizinha.

- Não foi o que a mãe falou…

- Já falei que sua mãe está ficando louca…uma louca ciumenta…nessa idade, onde já se viu?

A mulher, boquiaberta com aquelas negativas e claro, furiosa com as acusações do marido, interviu.

- Armando, você nem conta mais aquelas hisórias para os seus netos.

- Já contei todas, Lina.

- Isso é desculpa… a verdade é que você não se lembra de mais nenhuma. Tô falando filho, é Alzheimer…

- Eu não tenho doença alguma!

- Então vá ao médico, pai… só para termos certeza.

- Eu já falei que não preciso dessas coisas.

- Tá vendo filho…ele fala isso, porque não deve se lembrar nem do nome do médico.

- Tenho a memória de um elefante, Lina.

- Ah é? Então fala do dia do nosso casamento…a nossa Lua de Mel…conta pra eles todos os detalhes. Conta para os seus filhos!!!

Para o Seo Armando, aquilo já era demais. Uma dúvida coletiva sobre o seu estado de saúde. Não estava preparado para aquilo. Ainda mais ele, que sempre teve uma saúde de ferro. Que sempre foi invejado pelos filhos, e principalmente pelos netos. Seo Armando então respirou fundo, e extremamente nervoso, abriu a matraca.

Contou todos os detalhes daqueles 52 anos de casamento. De como foi o pedido de casamento. De como foi a Lua de Mel. Das noites de amor em que fizeram seus 5 filhos. A família estava espantada com tamanha memória do velho. E ele não parava. Continuava falando. Da vez que brigaram e foram viajar para Angra dos Reis, a fim de fazer as pazes. Falou do nascimento de todos os 16 netos.

Seo Armando era agora uma metralhadora de histórias. E o ódio de que duvidassem da sua saúde era tanto, que acabou falando demais. Falou das amantes, das noites nos puteiros da cidade e até da segunda família que ele mantinha com sua segunda aposentadoria, que ele recebia através de identidade dupla que mantinha em segredo.

Somente quando finalmente parou de falar, Seo Armando pôde perceber o estrago. Dona Lina estava caída na sala, aparentemente, sofrendo um ataque epilético. As crianças estava chorando. As noras já tinham levantado e ido embora no meio da história. E os filhos não conseguiam se mover. Antes de se retirar da sala, com um resto de raiva, ele ainda gritou.

- Alzheimer é o caralho. Eu tinha era consciência.
Ricardo Polinesio
Enviado por Ricardo Polinesio em 05/11/2007
Código do texto: T724680

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Sobre o autor
Ricardo Polinesio
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
68 textos (5640 leituras)
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Ricardo Polinesio