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ANTES TARDE DO QUE NUNCA

(AGORA SIM! É PRIMAVERA!)

 


Em grande parte do hemisfério sul, especialmente no Planalto Central doBrasil, particularmente em Brasília, entramos no período chuvoso. A alegria, que faltava, agora retornou à nossa rotina, com variadas cores ofertadas pela natureza ao redor das casas, em parques, ao longo das rodovias e às margens dos rios. Daqui para frente, acabam-se as alergias e as indisposições provocadas pelo clima de deserto. Os tons marrons vão, pouco a pouco, sendo substituídos pelo verde, que assim se manterá até maio do próximo ano.  É a temporada das águas. É metade da primavera oficial e início da primavera real.


As caminhadas matinais agora se tornam mais agradáveis, devido ao aumento da umidade e às mudanças no cenário natural.

 

Minha casa é um sobradinho luminoso e bem ventilado. Enquanto escrevo meus textos, sinto e ouço o vento lá fora balançando os galhos da mangueira frondosa, carregadinhos de frutas adolescentes e adultas. À medida que mudam da cor verde para amarelo, vão caindo sobre a tela esticada especialmente para apará-las a cerca de dois metros do solo, para alegria da meninada, que passa de um e de outro lado da rua com os olhos voltados para o local. Impressionam-se os transeuntes com o respeito que todos têm pela tabuleta que fixei em um ponto estratégico. Ali está escrito: “Não atire pedras na mangueira! As mangas poderão ser colhidas pelas frestas da tela, com cuidado”. Assim tem sido. Dia e noite elas caem. As pessoas passam e as recolhem, de forma quase imperceptível. Concluo o quanto de inverdades se propala mundo afora sobre a honestidade e a educação do meu povo.

À direita da mangueira, há um jambeiro esbelto, que lembra uma top-model. Essa árvore mais alta e estreita viu-se obrigada a envergar para a direita, pressionada pelos galhos da vizinha gorducha e musculosa. Mesmo assim floresce, informando-nos que também irá premiar-nos logo com seus frutos aguadinhos. Incomoda-me vê-la torta e, por uma questão de justiça, venho pensando em fazer uma lipo-podação em alguns galhos da folgada vizinha, para que a prejudicada tenha a liberdade de ocupar mais espaço à esquerda, aprumando-se.

Mais abaixo, posso contar as poucas flores nos ipês roxos, que antes estavam recheados de cores vivas. Coitados! Agora vão cair no ostracismo por um bom tempo. Sua beleza somente será notada em julho do próximo ano, quando reinarão sozinhos, como um oásis, na paisagem do cerrado.

 

Os pombos que se instalaram nos pontos mais protegidos da copa das árvores no inverno, agora arrulham pela manhã e ao final da tarde, chamando a atenção da vizinhança. Juntam-se aos sabiás, beija-flores, borboletas e lagartixas na comemoração de cada gota d’água que serve ao aumento da oferta de alimentos e ao seu banho refrescante. Conversam longamente durante todo o dia, em linguagem ritmada e inconfundível entre um e outro bater de asas, intercalado com freqüentes pousos. Festejam, organizam-se em verdadeiro exército de alegria, fazem escola, ensinam e aprendem uns como os outros as técnicas de sobrevivência, articulam e desarticulam seus vôos ora rasantes, ora em direção aos pontos mais altos dos telhados dos prédios próximos. Nos fins de semana, através da cobertura transparente que instalamos na área de serviços, vejo-os pousar no telhado, na antena de TV ou sobre a tampa da caixa d’água, como se quisessem compartilhar conosco o silêncio das manhãs ensolaradas. Dominam o espaço, alegram os humanos, transformam a natureza para melhor. Penso que muitos deles devem ter chorado a perda de parentes queridos nos terríveis incêndios do recente período de seca. No entanto, estão aí corajosamente dando continuidade ao processo de reprodução e recuperação da natureza. São exemplos para os “racionais”, que se desanimam diante das pequenas dificuldades de suas existências.

 

Neste ano, temos mais uma novidade na frente de nossa casa. É a famosa Horta Comunitária, que já nos rendeu uma reportagem na TV Brasília e três publicações em Jornais, um deles lido e autografado por Erasmo Carlos, o Tremendão. A pedra fundamental da Horta foi lançada em 1º de agosto de 2006, quando papai preparou o terreno para o plantio. A inauguração se deu em 27 de setembro de 2007, com a divulgação ampla e quase simultânea da sua existência. Com área inicial de apenas 38 m², a horta comunitária poética já conta com mais  de 100 m², onde estão sendo plantados desde os temperinhos mais comuns da nossa culinária até poderosas ervas de efeitos analgésico e anti-inflamatório. Foram incorporadas aos seus canteiros algumas verduras e legumes como rúcula, espinafre, jiló, tomate,  batata yacon, cana do brejo.

Todos os dias chegam mais mudas e sementes.   A comunidade contribui com o que pode: garrafas, potes e vasos plásticos, adubo e terra vegetal, enfeites, poesias, livros, mão de obra, dinheiro. Devagarzinho vamos delimitando novos espaços e transformando a área em um exemplo de convivência saudável com a natureza. Afinal, este é mesmo o nosso propósito.

Sandra Fayad Bsb
Enviado por Sandra Fayad Bsb em 06/11/2007
Reeditado em 06/11/2007
Código do texto: T726312
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Sandra Fayad Bsb
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