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                      Meu avô Chico Caetano

 

 

 

                 Não conheci meu avô, Chico Caetano.Dele só tinha a lembrança do grave retrato pendurado na parede.Um temor, como se a seriedade que transmitia a imagem que ficou, pudesse tolher minha vontade, até meus passos...Lembro-me ainda de quando dormia na casa de minha avó, se tivesse de levantar-me no meio da noite para ir ao banheiro, quando passava pela sala de visitas e dava de cara com o retrato, eu ficava momentaneamente paralisada pelo medo que só a noite sabe fazer. Talvez meu medo fosse causado pelas histórias assombradas que minha avó contava . Foram muitas às vezes em que eu a ouvi dizer que ele voltava sempre e andava pela casa vigiando os que dormiam. Como antes, quando era dono e senhor.Como antes, bem antes que a febre tifo consumisse a sua vida e o levasse para o outro mundo.

 

                Anos depois, trinta, quarenta? Anos depois eu o vi. A beira da cova rasa no cemitério abandonado, sua caveira jazia a espera de mais um filho que viria lhe fazer companhia.O cemitério de Arantina era um lugar de tristezas. Os túmulos abandonados, as flores ressequidas, a ausência total de árvores. Era um lugar mais morto do que os mortos que ali deixaram seus ossos. Um pé de milho crescia triunfante junto a um dos ângulos superiores e eu senti em minhas lembranças o aroma e o sabor do milho assado na brasa do fogão.E, lá em baixo, a paisagem tranqüila, vaquinhas pastando debaixo de árvores retorcidas. Naquela tarde, o frio sol refletia dourado no verde e as pálidas casas aglomeradas bem embaixo me fizeram pensar em paisagens que eu só vira em revistas. Foi ali, naquela tarde, que conheci o meu avô Chico Caetano

.

                 Devo ter lhe posto olhos de pavor, olhos de quem anda pelo escuro a espera de fantasmas e os encontra.

 

                  Foi no dia em que meu tio Licinho morreu. Fui mais cedo para o cemitério, nem sei bem a razão. Quando cheguei o coveiro estava preparando a sepultura para receber o novo morto, já que a cova servia de residência final para outros dois: . O pai, Chico, e o filho Chiquito, o caçula que nascera no mesmo mês em que o pai morrera. E aqui repito o que já lembrei em outras histórias que contei, de tão marcado que me ficou: “Antes de começar a gritar vi um crânio rolando, caindo das mãos do coveiro, uma mecha de cabelo resistindo a morte.Era o crânio do meu avô Chico Caetano” Foi assim que o conheci e é assim que me lembro dele. E é incrível como isso me libertou do medo. Aquela caveira rolante me fez perceber o quanto amava meu avô desconhecido.

 

 

Maria Olimpia Alves de Melo
Enviado por Maria Olimpia Alves de Melo em 07/11/2007
Código do texto: T727720

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Sobre a autora
Maria Olimpia Alves de Melo
Lavras - Minas Gerais - Brasil
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