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GANHEI NA LOTERIA. E AGORA?

O que você faria se de repente tivesse um bilhete de loteria premiado nas mãos? Premiado seria pouco. Muito premiado. Podre de premiado.

Você sairia pelado na rua? Gritaria da janela do condomínio tudo aquilo que está entalado na garganta esse tempo todo sobre os seus vizinhos que vivem chateando e implicando com o "barulho" da música que você ouve, com a sua mania de trocar os móveis de lugar ou com a visita dos seus parentes nos finais de semana? Lembraria de dar uma boa torta de morangos para a vizinha debaixo, já um tanto sarcástica, que sempre te olha de cara amarrada por viver trocando de namorado? Afinal, nem sempre a gente acerta de primeira!

Depois de espasmos de felicidade, de torcer o tornozelo de tanto pular pela sala e de saracotear numa dança meio afro, meio techno, meio jazz, meio sapateada e amalucada - ritual comum a momentos extremos de grande euforia, o que você faria? Ou antes, como uma flecha zunindo ao lado da orelha, o que você nunca mais faria?

O que eu nunca mais faria? Pensando assim, de repente uma lista aos moldes de "Harry Potter" foi se desenrolando da ponta da minha caneta invisível que eu ia usando a cada novo pensamento que brotava de todos os cantos da minha cabeça. Dos mais empoeirados aos mais lustrosos e usados.

Nunca mais andaria de ônibus. Nunca mais depedenderia de ônibus pra coisas importantes. Usaria pra passear. Em domingos, bem cedinho quando todos dormem, aproveitando para conhecer lugares que eu não saberia como chegar de outra forma. Lugares por onde nunca andei. Não teria pressa, nem sairia atrasada.

Daria uma casa pra cada parente chato que conheço, todas bem longe de mim. Mas uma casa pertinho da outra. Logo, seriam capa dos jornais populares. Iam todos se engalfinhar como cães e gatos.

Resolvida a questão particular e familiar, fiquei em dúvida de repente. Banho de loja? Lipo? Tatuagem? Silicone? Bota tudo na sacola e, por favor, uma temporada num spa bem caro e chique. Depois, uma visita desprentenciosa aos ex. Provavelmente, depois de vê-los sem fala, lívidos e carregando uma culpa enorme por não estarem mais comigo, viraria as costas e iria embora. Pegava o primeiro jatinho pra mil léguas dali - como disse Martha Medeiros em uma de suas crônicas, me tornei boa demais pra eles...

Compraria a padaria que tem na frente do meu prédio. Daí todo dia poderia ir tomar café da manhã na padaria sem ter medo de estourar o cartão no meio do mês. Cada dia um doce diferente. Um salgado mais engordativo do que o outro. Comeria torta de morangos ao acordar. Pão de queijo antes de dormir. Na boquinha do meio da noite também. Depois, de novo, lipo, lipo e mais lipo, cla-ro!

Ao menos que eu tenha reservado uma parte e feito algum investimento, logo, não teria mais nada. Investiria naquele livro que estou pra escrever a um tempão. Mais que isso. Escrevia logo o livro épico dos nossos tempos atuais tão históricos, reunia as crônicas que escrevi e pelas quais eu morreria se fosse preciso, montava com ilustrações próprias as poesias que passei a escrever nos muitos dias sem compromissos, porque nunca tive paciência pra ler as poesias dos outros e acho que as minhas me satisfazem no gosto.

E como diria o Juremir Machado da Silva, eu admito: eu gosto de falar de mim e das minhas coisas. Não porque seja uma forma de auto-promoção. Mas é pra contrabalancear com as algumas muitas vezes que certas línguas coçam pra ficar batendo trela da minha pessoa.

Por fim, depois de muito passear, de ter e ser tudo o que o dinheiro pode comprar, eu iria morar numa casinha no meio do campo, com janelas largas e tv via satélite. Mentira. Passarinhos me comovem, o som do riacho me deixa nostálgica, o barulho do silêncio me deixa em sintonia com a minha pessoa interior, mas não devo e não vou mentir. Gosto da cidade, do cheiro da rua, do cheiro dos livros nas livrarias e dos cafés nos shoppings. Gosto de gente, de confusão e de alardes.

Por isso, fico aqui mesmo onde estou. Quem sabe eu poderia ajudar mais as pessoas, ensinaria as primeiras letras e as que vem depois numa escola de bairro por simples prazer, andaria a pé de vez em quando, mas dormiria em lençóis de linho egípcio e levaria as crianças na escola - porque daí posso pensar em famílias 4.0 - dirigindo um modelo conversível do último tipo.
Isadora Pitanga
Enviado por Isadora Pitanga em 07/11/2007
Reeditado em 07/11/2007
Código do texto: T727745

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Sobre a autora
Isadora Pitanga
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 36 anos
74 textos (8582 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 19/08/17 02:37)
Isadora Pitanga