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Pequeno Mito Grego

A dúvida era certa, mas o prazer de se estar vivo era inexplicável. Aquela criança tinha um Hércules no sorriso. Sabem do que falo, daqueles sorrisos que até fazem eco nos corredores da escola. O sorriso que corre junto, na hora que bate o sinal do intervalo da escola. Era um pequeno Hércules, já com os dons da retórica apenas no caminhar. O seu andar era um discurso político. Debate político. No dia seguinte todo mundo comenta, rindo gostosamente no aperto do ônibus (aquela bendita maldita linha para o Terminal Bandeira, como prato de pedreiro transbordando, assim pelas bordas). Era tal o poder do sorriso do menino.

Chovia sim, chovia muito. Mas na hora em que abriu os olhos e refletiu neles o céu, o próprio céu, grandioso se compadeceu. Abriu-se todo, mostrou sua claridade morna. Aquele cheio gostoso do verão, cheiro de mato e terra molhada. E vem aquele morno acumulado pelo excesso de lixo nas ruas, a rua tão quentinha e quase lavada que dá até vontade de deitar.

Vem correndo. Trotando. Com aquela gargalhada engasgada. O nhô, que nunca sei o nome, ali sentado com a perna manca desde 1992, quando era minha vez de descer por aquela rua pra comprar um pirulito; ainda com a mesma perna, observando o novo fôlego, correndo em círculos, sem querer chegar aonde. Assim é que é bom, andar sem ter por onde, sem chegar nunca. Sinto pena de todos os que caminham querendo chegar. Quando chegam plantam ali a estaca do bem adquirido e determinam outra rota. E assim vão. O menino nunca quer chegar, simplesmente quer.

O seu sorriso azul com perfume de recém-tomado-banho monta na motocicletinha. Até o moço da cocada parou, e ficou olhando ali, querendo ser o pequeno herói grego. E a risada ecoando no corredor da rua.

O pai não sabia o que fazer. Foi uma existência nula, mais nula do que cinza de fim de fogueira de São João, onde o início da manhã é friazinha daquele jeito, e o leve cheiro de enxofre no ar, que arde as narinas de um jeito gostoso. O caminhar rápido, ofegante indo pegar o ônibus das seis da manhã, na hora em que o dia ainda não decidiu se clareia ou se se mantém escuro. É o menino.

Não, ainda não, diz ele. Mas vai o senhor da obrigação dizendo: sim senhor, vamos que é hora. Hora de quê? Hora de levantar. Eu levanto outra hora... não que aí é hora de deitar. Deitar porque se já to deitado? Deitar pra levantar de novo. E vira para o lado sendo domado pela preguiça, com o corpinho leve todo pesado de sono. O menino levanta e deita a hora em que o corpo manda.
E continua correndo, com as perninhas gordas empurrando o velocípede, encantando até aos cachorros de rua, que abaixam mais ainda a cabeça diante dele. Deveras, esse é o poder de um semideus.

A rua que vai descendo e torcendo para a direita, fica reta, inclina-se muito para vê-lo. As árvores chacoalham e o menino vai, todo ele, sempre ele. A idade? Não sei, essas coisas não importam nessas horas afinal, o mundo inteiro é tão grande pra ser descoberto. A boquinha semi-aberta, o olho com fulgor arregalado, quase extrapolando os limites das pálpebras, enquanto vê um avião passar no céu. Vai correndo atrás, vai, vai que você alcança. Um dia alcança, eu desejo.

Logo param todos, a rua inteira, o mundo inteiro né menino? para vê-lo imponente, subindo e descendo em círculos, cuidando para não bater contra a guia. Ali estão todos que querem entender o fascínio que ele está sentindo. Não há mais cotas de movimento para os outros, por isso estão todos estáticos. Nada disso! Mera desculpa, o fato é o que o menino é o senhor da hora, e todos devem ficar parados em respeito até que ele se canse. Jamais se cansará, um semideus não se cansa nunca!

Num acesso de raiva por não saber explicar o que está sentindo, o pai pega pelo braço e leva pra dentro de casa. A fúria. Um choro estridente que vai mais longe que o eco, pois quem então não prestava atenção na alegria, parou pra ouvir o choro. O berro rasgado que arde a garganta durante dias, meses. Arde a alma, nunca mais se esquece. Pergunta-se por que? porquê ele não sabe. A tristeza é geral, até da perna, até do cachorro. O céu se fecha mais uma vez e começa a pingar pingando, bem pouquinho. Chuva quente, de ar quente, abafado, como uma almofada.

O que aconteceu?

O que aconteceu é que o papai não agüentou ver que é possível ser criança em dia de chuva, em dia de sol, em dia de escola ou de trabalho. O papai, menino, não vê que pode ser criança até quando está perto de outra criança. Mas não liga menino, você é o guerreiro mais poderoso da Grécia.
Continuei caminhando pedindo em oração para que aquele menino não crescesse nunca. Jamais. Mesmo assim, a chuva continuou em cima de mim. Não tenho mais os meus poderes de Afrodite.
Isabelle La Fleur
Enviado por Isabelle La Fleur em 08/11/2007
Reeditado em 29/08/2008
Código do texto: T728866

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Sobre a autora
Isabelle La Fleur
África do Sul
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