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TAVA NEM AÍ, até que perdí meu emprego

TAVA NEM AÍ, ATÉ QUE PERDÍ MEU EMPREGO.

                                                                                                 José Torquato

- Ô seu, me venda aí 3 reais de pão, 1 de ovos, açúcar e café e põe na conta.
Seu Zé era um dos únicos “credores” que ainda não sabia que eu estava desempregado e que só Deus sabia quando eu o iria pagar.
É eu fora colocado no olho da rua, tudo por culpa do sistema de transporte lá da comunidade, não tinha mais horário fixo, ninguém sabia quando saía um ônibus, muito menos quando chegava. E eu estava chegando atrasado ao trabalho todo o santo dia.
Mas agora e que eu estava dando conta do meu distanciamento dos problemas da comunidade, verdade que o Posto de Saúde estava abandonado, que a Escola era uma bagunça faltava professores todo dia, a água também, antes tão regular, agora falta dia sim dia não, sempre dizendo que o problema era da bomba lá do sistema que quebrou ou o quadro elétrico pifou, o lixo invade as calçadas junto com o mato rasteiro, antes tudo estava limpo e pintado. O Calçamento que tem menos de dois anos já está todo esburacado e não tem conservação. Em suma o atual Presidente nada, ou melhor, faz muita festa no Centro Comunitário, traz pagodes todos os meses, e trio elétrico de vez em quando, é legal, alegria muita, e muita cana, cerveja e mulheres atrevidas. Todo mundo acha o cara legal. Ganhou as eleições com larga margem de votos, todos eles da turma jovem e alegre da comunidade que já sabia que o cara era “O cara”, gostava de futebol e um bom Reggae e providenciava junto aos políticos sempre um evento bacana. Taí este é o cara. Votei nele... e estou desempregado.
Vou falar do outro cara, um chato de galocha, que vivia aos berros com microfone na mão a fazer manifestações e querendo que a gente participasse, eu hein!! E o pior quando a gente sentava para tomar umas cervejinhas e o chato tava lá, o cara só falava em associação, em melhorias disto e daquilo, que tinha conseguido “telar” o campo de Futebol, que iria fazer construir o Prédio para Escola, para o Posto de Saúde, para o PM/BOX, que iria conseguir que asfaltassem a pista, o corredor de transporte, que iria fazer um jornal, ia botar uma Rádio FM (a única coisa que fez de bom para mim na época), inté um tal de parque de esportes e lazer com adaptação para os deficientes, puxa já pensou, tu querendo só jogar conversa fora e tomar uma geladinha e dar de cara com um cara assim?
O pior é que o cara conseguiu tudo isto, o conjunto estava limpo, não tinha água, agora tinha, o transporte foi regularizado, não tava bom, mas bem melhor, foi construído a escola mais bonita que já vi, um posto de saúde o PM/box, foi asfaltado os corredores de transporte, em fim o chato trabalhava mesmo, vivia nos perturbando para ir a uma tal de Assembléia não-sei-de-quê, nunca fomos e no outro dia o cara tava cabisbaixo, chateado e eu adorava ver aquela cara. Um dia o cara até chorou lá no terminal rodoviário. Foi uma festa para mim.
Eu não tava nem aí, e nas eleições o cara perdeu feio, a turma gostava mesmo era de festa e não daquela baboseira toda que o cara vomitava diariamente em cima de nós.
NADA DISSO ME INTERESSAVA, NÃO ERA COMIGO, e agora estou desempregado.
Agora eu compreendo o cara, ele tava tentando nos unir para melhorar nossas vidas, ele estava lutando por melhores condições para nossa comunidade, Eu como a turma toda nunca o entendemos, não queríamos compreender. Quando o cara saiu e entrou o “Cara legal” só quem lucrou foi o “cara legal”, ta lá de carro zero, arrotando nova riqueza em cima de seus contatos políticos e da comissão por festa e outras tirinetagens, e nós estamos amargando um retrocesso em tudo que a comunidade sob a batuta do “Chato” conseguiu. Voltamos a estaca zero, transporte, água, saúde, educação, enfim só me dei conta quando os cacos caíram em cima de mim, e eu perdi meu emprego.
Torquato
Enviado por Torquato em 08/11/2007
Código do texto: T729090
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Torquato
Maceió - Alagoas - Brasil, 66 anos
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