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Miloca e Águia Negra bolivarianos


Vocês não teriam mesmo como saber que Miloca, uma nagô de primeira que ainda dá um caldo e tanto nos seus cinqüenta e nove de idade, anda de conluio com Águia Negra, tipógrafo recém-aposentado, desde que ambos leram nos jornais da semana passada sobre a criação de núcleos bolivarianos entre nós. Fisgados pelo carisma de Hugo Chávez, querem agora ser os primeiros no bairro a comprar e revender o peixe venezuelano.

Como quase todos os brasileiros, não conhecem muita coisa do país vizinho. Sabem apenas que é tocado por um velho coronel que não gosta do Bush, que é o maior produtor de petróleo da América Latina e que tem uma seleção de futebol das mais fracas no continente. Além disso, sabem também (o que lhes parece vagamente tranqüilizador) que o avatar socialista de Simón Bolívar goza da cautelosa estima do nosso Lula, que o trata como a um irmãozinho amalucado. De pé atrás, para dizer tudo.

Com esses elementos, Miloca e Águia Negra dão por satisfeitas as precondições para o estabelecimento de um núcleo bolivariano em Marechal Hermes.

Segundo eles, só falta uma coisinha de nada: querem a colaboração deste pobre cronista de internet para os contatos com os intelectuais de esquerda brasileiros, pois vão precisar de recapacitação política. Temem, com razão, que o que aprenderam no passado com as cartilhas do eficiente Politzer já não lhes sirva no caso do socialismo do século XXI, como diz o outro. Resumindo, vieram em comissão até minha casa para isso.

Papagaio!...

Fui curto e grosso:

"Sou mais pela revitalização do rio Tingüi e a devolução do coreto da nossa Praça XV de Novembro, que o prefeito mandou derrubar, garantem os moradores, na calada da noite."

E acrescentei, visando especialmente Águia Negra, que não ignora minhas simpatias pelo anarquismo mitigado:

"Esse negócio de democracia do referendo popular, com a faca e o queijo na mão, não é comigo. Não tenho nada contra o referendo, tenho é contra a natureza claramente antidemocrática das propostas que vão submeter a ele."

Para que não acabassem me tachando de reaça, o contra-argumento de ouro de grande parte da esquerda quando questionada, achei que devia dar uma colher de chá a eles, pelos velhos tempos.

"Procurem o pessoal do PCdoB. Eles têm mais cancha nessas coisas."

Foram embora de nariz torcido. Pelo jeito, vou cortar um dobrado com essa duplinha bolivariana se os tais núcleos fizerem sucesso no subúrbio carioca.

Só mesmo repetindo com Machado Penumbra: "Vae victis!"


[8.11.2007]

Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 08/11/2007
Código do texto: T729297

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 69 anos
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