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Médica de Família

                                         
   Não mando mais tantos e-mails, mas ando mandando bem é no trabalho. Tenho tido que ser alopata. As pessoas fazem melhoras como se o remédio fosse “benção homeopatizada”. Adoram remédio de graça do Posto; Adoram o Posto devido à carência em que vivem. Acham-me diferente, mas o ideal pra eles, pois sou o seu possível.
 Eu sofro muita pressão devido à produtividade exigida, tenho que atender a 500 pacientes ao mês. Além das visitas domiciliares e meus, claro, projetos comunitários - como campanha sanitária e dias comemorativos com as palestras educativas além dos problemas sociais junto ao Benefício Social para os carentes.
 Fico sendo examinada sempre acerca das condutas, com pressão da População que, sofredora, está sempre doente, além da pressão política das coordenadoras, do Secretário, das Associações, todos a querer confirmar se a população vai reclamar ou não do atendimento de 10 minutos que exigem, todos querem ser atendidos todo dia.   Mesmo um atendimento imediatista as supre! É uma loucura tem hora. Puericultura, pediatria, hipertensão, diabéticos, ambulatório, exames preventivos do câncer, pré-natal, exames de sangue, urgências e produção, produção, produção.
 Minha amiga de outro PSF me preveniu e orientou logo de cara: “Vontade, assiduidade, autoridade, você vai ver só”! Mas, tudo de bom! Ela trabalha numa comunidade mais urbanóide, deve ter uma complexidade mais complicada ainda.
 As técnicas de enfermagem, de serviços gerais, agentes de saúde, enfermeira e recepcionista têm que ficar me dando tudo na mão, até preenchendo receitas e laudos prá mim, 'triando' os casos reais e imaginários, senão eu choro!
  No entanto, eu gosto dessa coisa louca sim. Rendo bem mesmo. Acho que com mais prática vou ficar uma fera nisso. No bom e no mau sentido.
  As visitas domiciliares (vds) me encantam! Falar e ver os dolorosos em seus locais específicos e com o posinho de 'pirlimpimpim' pulverizar seus corações, seus leitos e condições.
  Meu coração tem cheiro de roupa guardada no fundo da gaveta. Deixo minha história quieta até quase me esqueço do meu 'eu'. Pareço estar num filme, só que real, com cheiro de fogão à lenha, suor, falta de sorte e de dente, com barulhos ora de hinos crentes, sinos, louvores e tambores! Sem um diretor artístico, sem estética poética romântica, mas com um realismo carregado que chega ao estereótipo do enteado baleando o marido da mãe ou da adolescente que diz que se não houvesse lei "ela matava mesmo”! Até o outro extremo da inocência, que é o da moça com 19 anos e que está na 4ª gestação e no 5º filho e que disse estar tentando ter uma menina! Sendo que os 'pais' das duas metades dos filhos foram assassinados por serem bandidos e ela não tem sustento. E o homem que chegou bêbado a Unidade mandando que lhe tirassem a pressão e quando questionado negou o álcool e disse chamar-se "Rei do Gado".
  Amo a nossa hora do almoço onde todos se viram para ter uma alimentação 'saudável', lavamos nossa louça, comemos o que tem, no melhor estilo da fome ser o melhor tempero!
  Sinto-me linda, forte e leve, principalmente na Dutra, ao atravessá-la numa corrente de ventos assassinos, em pleno coração da América Latina com as piscadas indecorosas dos caminhoneiros e motoristas tarados. “Vida Severina”!
  Sarna, piolho, tuberculose. Já compuseram esta música, mas ninguém pode saber o que é isso, de verdade, sem trabalhar num Programa de Saúde da Família.
  Este é o meu olhar do que faço e que agora me ocupa todo o tempo! Novas emoções e desafios! Espero superar todas as dificuldades e reprogramar esta proposta de saúde integral da população para uma oferta ideal!

Marise Cardoso Lomba
Enviado por Marise Cardoso Lomba em 17/11/2005
Reeditado em 05/01/2008
Código do texto: T72952

Marise Cardoso Lomba
Enviado por Marise Cardoso Lomba em 17/11/2005
Reeditado em 17/10/2012
Código do texto: T72952
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Sobre a autora
Marise Cardoso Lomba
Resende - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 02:44)
Marise Cardoso Lomba