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VELHOS TEMPOS

Coisa boa é passar horas numa varanda bem arejada na companhia de pessoas mais velhas e experientes, que têm mil histórias para contar. Isso me faz recordar os mágicos momentos que passei com os meus avós, quando, na varanda e sentados em um estreito banco de madeira, conversávamos sobre a vida, o passado, o presente, o futuro... enfim, sobre tudo.
Quando isso acontece, não olho para o relógio, porque nessa hora o tempo não tem a menor importância, nem me preocupo com os afazeres... porque esse momento é precioso e só há lugar para uma boa conversa.
Desde a infância troco qualquer agito pelas recordações e histórias daqueles que sempre têm algo para contar, daqueles que, como meus avós faziam, falam de passado sem nostalgias e amarguras. Mentes lúcidas que tentavam sempre me mostrar que é preciso saber viver e que a saudade, embora seja um pequeno detalhe perdido entre as tantas coisas da atualidade, é o que realmente vale e faz a diferença, porque é um sentimento harmonioso que marca em nossos corações e mentes a presença de um passado também harmonioso e feliz.
Nessas conversas, a admiração tomava conta do meu ser e eu me perdia em pensamentos, para finalmente concluir que o que eu ouvia era sempre verdade, até mesmo com relação aos projetos futuros. Pessoas simples e humildes, ensinando-me alguma coisa a mais sobre a vida. Elas pareciam até que eram bruxas, pois quase sempre sabiam se o fato teria ou não um final feliz. Gente sabida, que insistia em sonhar para não morrer.
A chamada terceira idade não é mais sinônimo de limitações. De contadores de casos a revolucionários. Eles esbanjam vitalidade e, com todo o seu conhecimento, poderiam ser exemplos para a atual juventude, a qual, porém e em nome da modernidade, insiste em seguir por caminhos errados.
Gosto de ver essas pessoas mais velhas caminhando cedinho pelas ruas, tocando em fanfarras e cantando em corais. Gosto de seus abraços quentinhos e seus acenos, abençoando meu dia que começa. Mas, por que não continuam trabalhando e produzindo? Por que são ignorados e, por conta disso, não lhes dão trabalho?
Quem não tem interesse por essa fonte de sabedoria, não sabe o que está perdendo. Converse e conviva com um deles. Eles são gente boa, que sabem trocar idéias sem pressa, mas com muita concentração; que fazem das obrigações a salvação de seus ideais de vida; que têm tempo para viver de uma maneira que ainda não aprendemos.
Eles são generosos consigo mesmos e exercitam sua sabedoria para que ela não apodreça em si mesma. Enfrentam o abandono e a solidão, dedicando-se em cuidar de quem só conhece o início e o meio; daí sabem que sentimentos não podem ser fabricados, nem mesmo com o que há de mais moderno no mundo. São pessoas vividas realmente, mas sem aquela arrogância, achando que tudo sabem e que são imunes à  dor e à  decepção.
Ao longo de minha vida tive a sorte de conhecer vários mestres na arte de viver. Com eles aprendi que os lamentos não podem durar mais que um segundo; que todo trabalho desenvolvido sem prazer torna-se uma tortura e que possuímos várias faces, e só as descobrimos à  medida que somos desafiados. Alguns já se despediram de mim, mas em muitas situações em minha vida parece que os ouço dizer "não se adia o inevitável" e "isto faz parte da vida".
Não escondo meu saudosismo, porque o aprendizado que tive na convivência com essas pessoas me fez entender que as incertezas são inevitáveis e à s vezes necessárias e que é preferível a angústia da busca constante, do que permitir que a certeza dos outros destrua nosso entusiasmo, impedindo assim nossa livre escolha de errar e de acertar.
Meus avós são vencedores, meus pais percorreram caminhos que ainda estou conhecendo, por isso são meus melhores mestres. E a vida se encarrega de me apresentar a pessoas que já aprenderam a se olhar no espelho e se encontram, por isso, mais evoluídas e maduras, estando na hora e lugar certos para falarmos de sonhos possíveis, tempos bons que não voltam mais, namorinho de antigamente, viagens, aventuras e arte.
O tempo passa tão rápido que não admiramos a paisagem. Se os cabelos grisalhos e as rugas agridem a vaidade, o mais importante é que as marcas da vida sejam escondidas pela alegria de viver. Sabedoria, só tem quem já viveu mais e pode observar a vida por todos os ângulos, bem como pela conquista da serenidade, compreendendo que tudo se resolve a seu tempo e que basta saber esperar.
Nós é quem devemos conduzir o ritmo do nosso tempo, para que no futuro consideremos o que passou como bons e velhos tempos.
Cláudia Sabadini
Enviado por Cláudia Sabadini em 18/11/2005
Código do texto: T73079
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Sobre a autora
Cláudia Sabadini
Cachoeiro de Itapemirim - Espírito Santo - Brasil
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Cláudia Sabadini