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Edital para concurso de idiota

Estava eu, dando uma bisbilhotada num site especializado em concursos, olhando, procurando alguma coisa que me interessasse. - Sabe, eu sou daqueles que passam uma boa parte da vida querendo passar num concurso bom, mas desperdiçam uma outra boa parte desta mesma vida prometendo que irá estudar para o próximo que aparecer, e eles continuam passando e eu continuo prometendo estudar! Como se a gente estivesse esperando um concurso perfeito, tipo: Somente uma vaga, com salário acima dos quatro dígitos, no quintal de casa e com pré-requisito de Edital: “vaga a ser preenchida por candidato único.”?  - Foi numa dessas olhadas que um colega me falou de um suposto concurso do TST (Tribunal Superior do Trabalho), - porra, parece até sigla de partido de esquerda! - Logo me interessei. Comecei a ler a matéria, pesquisar sobre Edital, ementa de estudos, local para inscrição. Quando, como num circuito provocado por um transistor queimado, deu-se o apagão! – Local da Prova: Brasília - DF – Olhei de novo... sem querer acreditar... a prova só poderá ser feita em Brasília!
Que beleza! Imaginei...
Quando aparece um concurso ao qual podemos estudar para valer, termos condições de passar, estabelecer-se, planejar-se, temos também que fazer curso intensivo em turismo?! É, porque para quem mora no interior do interior do sertão baiano, (Nordeste da Bahia, do Nordeste brasileiro), pra se conseguir o feito de se chegar a Brasília, só numa Cruzada homérica, como fez Ulisses.
Vamos analisar os pontos!
Para quem pleiteia uma vaguinha num concurso federal, deverá deixar seu passaporte de tabaréu guardado; raspar aquele tacho esquálido de resto de caderneta de poupança e/ou limite de cheque especial, o mesmo que lhe servia como diploma de homem... aos que os possuem! Para os que não, vai uma manual de sobrevivência para conseguir chegar, pelo menos, ao local da prova:

 - venda umas cabecinhas de criação, nada mais do que umas 20, para poder comprar a passagem ( de ônibus!). Sem esquecer que você terá pela frente longos ( 1.443,78 km  a serem percorridos, saindo de Salvador), sem contar com as belíssimas escalas que deverão ser feitas pelos terminais rodoviários da Bahia, Goiás e do Distrito Federal! Da até para fazer um intensivão sobre vegetações brasileiras – caatinga, cerrado, chapadas...

 - para a viagem de avião, deverá vender umas 40 criações. Se tiver gado, será menos;

 - mas, se você não tiver nem caderneta, nem limite de banco, nem criação de nada, dá para fazer um empréstimo junto a um agiota. Aaahh, ééé! O agiota! Como tinha me esquecido?! São apenas aqueles básicos 10% de jurinhos ao mês, nem dá pra sentir, se não tiver como pagar o valor todo, vai pagando os juros, sem esquecer que, quando sair o resultado do concurso, e ele for negativo para ti, terás grande estimulo para continuar bancando a farra inflacionária destes empresários do ramo de especulação financeira;

 - existem os bancos, também, - para aqueles que, porventura, imaginarem-se presos à mão de agiotas - grandes instituições financeiras que muito contribuem para o crescimento do nosso país, cantado como pátria idolatrada naqueles lindos comerciais televisivos que nos enchem de orgulho por sermos brasileiros e que os enchem de orgulho por sermos idiotas. Poxa! Os bancos!!!
Lá, você só precisará de alguns procedimentos básicos para conseguir um emprestimozinho que nem irá sentir, após 60 suaves prestações mensais:
 - Tu só vais precisar de RG, CPF, Titulo de eleitor, Comprovante de residência, comprovante de renda, Certidão de casamento, conta de água e de luz, referências profissionais, ficha limpa nos serviços de proteção ao crédito, avalista idôneo, tempo como cliente da agência, tempo de serviço na empresa em que trabalha, referências no comércio local, prazo para aprovação de crédito... Pronto! Com só estes requisitos, você consegue um empréstimo de mil conto.  Já dará para comprar aquela bela mochila, conjugada àquela camisa vermelha de poliéster com algodão, bem como, a calça pré-lavada que sempre lhe deixa com um pouquinho de saliva no canto da boca toda vez que você passa pela barraca de camelô. Aquela barraca que a gente passa despretensiosamente, sem ninguém perceber, sorrateiramente, à tardezinha. É botar debaixo do braço, e gritar a plenos pulmões: “ Tá vendo?! É igualzinha àquela da loja da esquina! Comprei no XopiXão! Dá pra acreditar?!”
Sem contar que ainda vão sobrar uns trocados para gastar na viagem.
Mas, e o dinheiro para comprar a passagem? Bem, este você deverá conseguir com outro empréstimo que servirá para pagar os juros do primeiro, pois o primeiro, como toda instituição organizada e de credibilidade que se preze “foi concedido ao senhor com o intuito de estabelecermos um vínculo bem mais satisfatório entre as partes”. E volte sempre, babaca!
Pois bem, dadas algumas sugestões para se conseguir chegar à Terra Prometida, desejo aos poucos que irão se aventurar nessa viagem quixotesca, sinceros pesares, pois, além de conseguir apenas algumas poses ao lado dos gigantes de pedra erigidos por Niemeyer e Lúcio Costa, sei que vocês terão o enorme desprazer de compartilhar, bem de pertinho, o mesmo oxigênio, deveras purulento, dos 300 picaretas com anel de doutor, que o Luiz Inácio, quando ainda se percebia do outro lado do muro, havia avisado, e que agora, astro-rei da constelação, passa a fazer parte, não só do refrão da música dos Paralamas, mas de sua reinterpretação.

A todos que desejam conhecer a Meca da Arquitetura Moderna, heis a chance de se tornar um vanguardista.
Mas, não era para fazer Concurso?!...
Agmar Raimundo
Enviado por Agmar Raimundo em 10/11/2007
Reeditado em 15/03/2017
Código do texto: T731507
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Agmar Raimundo
Monte Santo - Bahia - Brasil
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