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ESTRANHO

- Xaxinense! Lá ninguém chia...
- Como?
- Somos Catarinenses, mas, não chiamos...
- Pensei que fosse Xaxiense...
- Pois é. Sem chiado: Xaxinense!
- Não entendi...
- O quê?
- Mas existe Catarinense que chia?
- Ô! Se existem!
- Existem?
- Sim, e são é muitos!
- Muitos? E como eles são?
- São estranhos...
- Estranhos?
- Sim! Muito estranhos: são conhecidos também por papa-peixe.
- Papa-peixe?
- Sim! Por causa do seu hábito alimentar: adoram sardinhas e tainhas, mas, comem também camarões, lagostas, mexilhões, ostras, mariscos... Até caranguejo, que também não é peixe, e chiam que dá gosto de ouvi-los falar; é ixi, ixi pra todo o lado...
- Vixe!
- Vissi?
- Como?
- Vissi! Lá eles dizem “vissi”, quando querem dizer viste.
- Que estranho... Profissão?
- Engenheiro...
- En – ge – nhei – ro !
- ...Agrônomo.
- E, A – grô – no...
- Não, não! É Engenheiro Agrônomo, tudo junto.
- Ah! E o que você faz?
- Presto Consultoria e ...
- Não, não! Lá em Xaxim!
- Nada. Saí de lá aos 14 anos...
- Mas, você nasceu lá, não nasceu?
- Sim. Sou um Xaxinense legítimo!
- E o que você fazia lá?
- O que uma criança normal fazia: vivia pelos matos, muita montanha por lá... Tomava banho de açude, pescava lambari nas sangas, cutucava marimbondo, derrubava bergamota, sapecava pinhão nas grimpas secas caídas dos pinheiros...
- Ave!
- Tomava banho de chuva, joga bola nos potreiros...
- Nos o quê?
- Potreiros! Cercados onde ficavam as vacas leiteiras, ou cavalos, ovelhas, esses bichos... Sem havia algum por perto.
- Ah! Vidão, hem? Muito mato por lá?
- Que nada, já derrubaram quase tudo para plantar erva-mate ou soja... Plantam muito milho e feijão também. Criam muita galinha e porco agora. No meu tempo era quase só de terreiro...
- Faziam macumba?
- Não, não... Terreiro era como chamávamos os pátios das casas nas colônias, nos sítios, como vocês chamam aqui. Os bichos viviam soltos, só uns poucos iam para as gaiolas ou para os chiqueiros...
- E quando você volta?
- Não volto. Já concluí o meu trabalho por aqui.
- Não, não... Quando você volta pra Xaxim?
- Ah! Não sei...
- Você não tem saudades?
- Ô! Ainda tenho muitos amigos por lá, mas, já cresceram todos... Isso os que não morreram.
- Morreram?
- Sim. Pelo menos uma meia-dúzia daqueles que nunca morrem no coração da gente... E, de vez em quando, vai mais um... Ás vezes é um antigo professor ou professora; dos velhos que eu conhecera já foram quase todos, mas, o pior mesmo é quando chega notícia de que era um dos colegas de aula...
- É ruim!
- É, mas, é da vida. É natural...
- Mas é ruim...
- Mas, é a vida...
- E o que mais você faz, assim das coisas que você faz porque gosta de fazer?
- Hum, eu gosto de tudo o que eu faço, ou quase tudo, mas, se tem uma coisa que eu faço desde pequeno e que eu gosto muito de fazer é escrever...
- Ah, isso eu também faço!
- É? E o que escreves?
- Não muito, mais mesmo são as fichas, dá uma trabalheira... E você?
- Eu escrevo de tudo um pouco: poemas, crônicas, contos, causos; o que me der na teia, se for interessante, eu escrevo... Qualquer bobagem, até mesmo diálogos inusitados...
- Que estranho...
- O que? Escrever sobre tudo o que vemos, vivemos, sentimos ou criamos?
- Não... Que estranho é ser um Xaxinense...
- Ô! Mas há muita gente normal por lá...
- Assina aqui!
- Pronto!
- O que é os três pontinhos?
- Nada! É mania... Reticências!
- Boa viagem!
- Tchau!Obrigado! Fique com Deus e leia bastante, “vissi”?
- Tchau, Xaxinense sem chio...
Chico Steffanello
Enviado por Chico Steffanello em 10/11/2007
Reeditado em 28/11/2007
Código do texto: T731791

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Sobre o autor
Chico Steffanello
Sinop - Mato Grosso - Brasil, 59 anos
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