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a arte desolada

Para isto ser uma crónica tinha que ter acontecido, aconteceu. Eu, o texto e as circunstâncias de tão circunstanciais são estas: lia um jornal e deu-me para escrever sobre... isto.
A quem já não coube a experiência de visitar exposições onde nos detemos perante "a arte desol_ada"? Olhar à descoberta ou descobrir o olhar a descobrir? Pensar qual o "olhar" do autor ou cultivar o insólito, procurando dar-nos o gozo pessoal da solidez dum "olhar" que será nosso mas sem qualquer critério de posse ou de desejo, uma evanescente experiência do momento?
Traço um rumo sobre um tema onde a ambiguidade veio para ficar, só tem alguma coisa para dizer quem não está à espera de comunicar coisa nenhuma?
O confronto com a realidade dá-nos características próprias do fenómeno, abordemo-las procurando particularidades. A promoção da arte, a arte hoje pertence ao mercado de consumo. A peça fica bem, adquire-se como bem estético, não fica bem, bem?... Adquire-se para investimento. Não terá sido sempre assim, nunca como hoje. Estamos perante uma sociedade tão... coisificada, moldada por modas?
As obras são expostas com comentários onde a opinião do artista deu lugar à presença dum crítico que disserta, às vezes sem qualquer enquadramento teórico sobre a expressão da arte praticada.
O jogo das evidências é enunciado pelos nomes das cores, das formas, dos espaços... Não há nada a dizer, tudo o que se diga ocupa o espaço do dizer, substituindo o olhar pelo olhado. A realidade é... à frente, atrás, aos lados, acima e abaixo, atravessa diagonais, deixa cortes e alçados, dá-nos a planta das coisas, diagramas, gráficos e escalas, cuja leitura torna mensurável o objecto: a (sua) realidade...
O vazio deixou de ser uma qualidade, passou a condição, ocupa uma centralidade na produção das ideias, é uma forma de pensar a própria realidade transformada em deserto (minimal, repetitivo)...
Não sou estranho a tudo isto, sou tudo isto. Transcrevo sem escrever quem escreveu, recuso tornar a realidade real. Situo-me como não-eu, transcrevo:
«O olhar não identifica as formas, funde-se nelas e reclama-as como figuras onde se alterna entre o fundo e a forma, o dentro e o fora, a leitura e o lido. De modo a ser visível a invisibilidade dum acabamento definitivo, capaz de determinar uma conclusão: tudo nos pede a mutação!»
O espaçamento entre parágrafos corresponde à continuidade de descontinuidades, permite mais este supér_fluo comentar... As aspas situam um citar sem citado, mais um final que resolvi ultrapassar.
Francisco Coimbra
Enviado por Francisco Coimbra em 22/03/2005
Reeditado em 09/10/2005
Código do texto: T7331
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Sobre o autor
Francisco Coimbra
Portugal
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