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Inundação e perda da inocência

A maioria das pessoas imagina a caatinga como uma região seca e quente,  mais ou menos como  um deserto. Verdade que às vezes o sol bate bem firme, queimando a cuca da moçada e vez por outra tem uma seca que deixa os riachos e açudes vazios e o pessoal passa sede mesmo. Mas quando chove, a região fica extremamente bonita e a vegetação fica com todas as matizes do verde que você pode imaginar.
 Morava no Vale do Jaguaribe, no Ceará, em um lugarejo bem dentro da caatinga.
Por lá sopra um vento por nome de Aracati, com hora marcada, (passava mais ou menos as 9hs da noite) e todo mundo dizia  que ele vinha da África, atravessava o Atlântico e se metia pelo nordeste, entrando pelo Ceará. Não sei se era verdade, mas em toda minha infância isso era tomado como um dogma...As pessoas sentavam na calçada esperando a hora em que ele começava a soprar pra diminuir o calorão já que ninguém tinha mesmo ar condicionado.
O vale também tinha como particularidade, servir de leito para o rio Jaguaribe que tinha o titulo, não sei se ainda é possuidor, de ser o maior rio seco do mundo. Entenda, não quer dizer que não tinha rio passando ali, mas que era o maior rio periódico, porque secava no verão que na região significava algo assim como mais da metade do ano, haja vista que só tinham duas estações: a chuvosa, que a gente chamava de inverno entre março e  junho e o verão que não chovia mais e se esticava pelos meses restantes.
Então pode imaginar a ansiedade que a turma ficava esperando o começo das chuvas pra se saber se ia haver inverno ou seca.
Haviam os profetas e adivinhos com teorias e experiências meio malucas de previsão do tempo, sempre ligadas a algum evento ou santo de plantão e que costumavam errar com certa freqüência.
Quando chovia, o tal do rio Jaguaribe engrossava, e como se achava o maior rio seco do mundo (isso deve estar no Guiness) transbordava pelas várzeas e saia na maior inundação, que a gente chamava de cheia e que pra criançada era uma festa...Claro,  você pode imaginar: não tinha aula, a cidade ficava toda submersa, o transporte passava a ser de canoa, a gente ficava acordado até tarde, brincava na água o tempo todo. Naquele tempo ninguém falava nessas doenças que vinham com a água, tipo dengue, esquistossomose, ou a do xixi de rato e essas modernidades que vieram com a poluição.
Então a cheia era uma festa só, a gente se divertia de montão embora os pais da gente ficassem preocupados com as coisas deles, o meu mandava subir os móveis para o forro, a gente passava a dormir em redes, faziam um murinho nas portas de entrada, que a gente chamava de sapata, para evitar que a água entrasse em casa, ficavam medindo o nível do rio para ver se ainda estava enchendo, enfim, essas preocupações bestas de adulto que a criançada não consegue entender.
Eu sei que umas das ditas cheias, eu devia ter uns 6 ou 7 anos, foi excelente, a água chegou quase na nossa porta  mas parou na sapata e a gente ficou com uma verdadeira piscina em frente de casa uns 5 ou 6 dias. Dava pra pular dentro dágua  da porta de entrada e papai vinha do trabalho numa canoa, um verdadeiro carnaval.
Mas como tudo de bom tem fim, a cidade voltou à rotina em uns 10 dias e a gente teve que voltar pra escola e encarar de novo a chatice de aulas e deveres de casa...
Dias depois, meu pai chamou um pedreiro pra desmanchar a tal sapata e aproveitou pra pintar a fachada da casa que ficou muito manchada com a água da cheia. Tava meio suja eu acho... O fato é que o homenzinho chegou com uma escada e tome tinta pra cima e eu ficava por ali peruando o serviço e puxando conversa com ele.
Lá pras tantas, como não podia deixar de ser, o assunto descambou pra cheia que tinha acabado. Eu falei que tinha achado muito boa, e esperava que ele também tivesse a mesma opinião já que todo mundo da minha idade pensava assim.
- O sr. Gostou da cheia? Perguntei
-Não, ele respondeu, minha casa caiu...
Então, cai na real e na minha ingenuidade, percebi que para algumas pessoas, a cheia não tinha sido lá muito divertida.
Pode crer, foi o meu primeiro contato com os problemas sociais...
ZéCarlos
Enviado por ZéCarlos em 19/11/2005
Reeditado em 10/02/2012
Código do texto: T73364
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Sobre o autor
ZéCarlos
Cabedelo - Paraíba - Brasil
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ZéCarlos