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Perseguição

 Lembro que eu estava saindo do trabalho, estava com bastante pressa

pois o céu ameaçava chuva e eu estava cheia de bolsas. O pessoal do

trabalho nunca esquecia do meu aniversário e eu sempre ganhava mil

lembrancinhas.
 Corri até o ponto de ônibus na esperança de encontrar um assento

vazio, mas o ônibus já estava lotado.
 Eu sempre detestei lugares cheios e tumultuados, estava sentindo-me

como uma sardinha na lata. Era bem desconfortável e desagradável ficar

cheirando o perfume da avon da moça do meu lado e o suvaco do senhor

que estava à minha direita. Mas logo estaria em casa, nada tiraria da

minha cabeça a idéia de um banho quentinho.
 Poucos minutos depois eu estava descendo no meu ponto e entraria no

metrô. Todos os dias eu desejava trabalhar mais perto de casa, assim

economizaria meus pés, minha energia e meu dinheiro.
 Na pressa deixei uma das minhas bolsas cair, virei-me rapidamente para

trás para pega-la e foi aí que reparei nele. Ele estava me olhando de

longe com um ar sério. Tentei não ligar e desci correndo as escadas do

metrô, já estava começando a chover.
 Peguei meu bilhete e atravessei a roleta e percebi que aquele homem

fez o mesmo, sempre me observando. Não queria acreditar naquela hora,

mas eu estava mesmo sendo seguida.
 Pensei em tudo o que eu tinha de valor na bolsa. Agradeci por ter

esquecido meu celular em casa, tinha acabado de comprar. Não queria que

nenhum assaltante levasse ele. Não o meu celular que eu sempre quis e

que demorei a comprar!
 O vagão do metrô também estava lotado de gente mas eu via o olhar dele

acompanhando os meus pequenos gestos no meio da multidão. Ele nem

disfarçava, a cada minuto eu tinha mais certeza de que ele faria algo

comigo. Será que estava me seguindo há muito tempo?
 As pessoas iam descendo a cada estação e logo ficaria mais fácil

circular pelo vagão, e com isso ele me abordaria. Mas se eu descesse na

minha estação ele desceria junto, eu já estava certa disso.
 Ele estava esperando apenas o lugar ficar menos movimentado e logo ele

me assaltaria ou faria coisa pior!
 Então eu tive uma idéia, resolvi descer na minha estação mesmo. Mas só

desceria quando as portas estivessem quase fechando, quando apitasse o

sinal de que as portas fechariam. Assim eu pegava ele de surpresa e não

daria tempo de ele descer, as portas fechariam.
 Estava satisfeita com a minha idéia, eu ria por dentro. Estava mais

tranqüila. A minha estação já estava chegando e logo eu sairia dali,

sairia de perto daquele bandido!
 O trem do metrô parou na minha estação, as portas se abriram e vi meia

dúzia de pessoas descerem. Apertei as bolsas contra o meu corpo e

fiquei aguardando o sinal de que as portas fechariam-se. Olhava

fixamente para a porta e cada segundo parecia uma eternidade, eu já

estava suando e minhas mãos tremiam.
 Assim que a porta começou a apitar, respirei fundo, corri e pulei para

fora. Eu tinha conseguido sair, estava orgulhosa comigo mesma. Mas eu

não acreditei no que vi, quando o homem viu-me saindo ele tomou um

susto e se jogou contra a porta e conseguiu sair por pouco. Aquilo não

era possível! Deus, porque esse homem cismou logo comigo?
Imediatamente corri para a escada rolante, procurava com os olhos o

segurança do metrô mas não o encontrava. Quando cheguei no topo vi que

o homem tinha pego a escada também e continuava a me seguir.
 Sai do metrô com pressa evitando olhar para trás. Mudei de idéia, na

verdade queria que meu celular estivesse comigo, assim poderia ligar

para alguém!
 Nem esperei o sinal fechar e fui correndo no meio dos carros. Minha

visão estava embaçada por causa da chuva mas eu via que ele continuava

atrás de mim. Eu tinha que pensar em outra coisa, eu era jovem demais

para morrer!
 Como um milagre eu tive outra idéia, peguei a chave da minha casa,

parei em frente a uma casinha pequena e fingi que aquela era a minha

casa e estava tentando abrir a porta. Talvez se ele pensasse que eu

tinha acabado de chegar em casa e que estivesse bastante gente me

esperando, ele iria desistir de fazer qualquer maldade comigo.
 Então fingi que estava encaixando a chave na fechadura do portão e

gritei bem alto " Querido, cheguei!". Mas o homem continuava se

aproximando e eu não conseguia mais esconder meu nervosismo, minhas

pernas tremiam e eu já estava lacrimejando de medo. Cada vez mais eu

ouvia seus passos se aproximando. Só me restava orar. Não conseguia

pensar em mais nada, queria tanto ter dito aos meus pais que amava

eles...
 Senti a mão do homem tocando meu ombro e eu virei-me para ele

chorando. Pensei que era o fim. Cheia de medo eu ouvi suas palavras:
 
- Com licença senhorita, você deixou cair sua carteira lá atrás. Eu vi

e vim atrás de você para devolve-la. Tentei fazer sinal para você no

metrô, mas acho que não me viu. Aqui está sua carteira.
 Ah, e porque está tentando entrar nessa casa? Essa casa é minha.
   
Dita Spieluhr
Enviado por Dita Spieluhr em 12/11/2007
Código do texto: T734686

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Sobre a autora
Dita Spieluhr
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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