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O que faltou 2

Todo semana me encontro com amigos de nacionalidades diversas para falar sobre política. Somos todos meio inconseqüentes no assunto mas bebemos bem e conversamos com paixão. Todos tem o que gabar. O americano fala do dólar baixo que cada vez mais permite crescimento em sua economia, o Russo em seu petróleo, o francês em sua comida, etc. Justamente quando eu estava ficando desanimado com a falta de o que falar, me lembrei de uma coluna de Elio Gaspari deste ano: Ate o meio do ano de 2007 o Brasil sozinho triplicou as greves do mundo.
Isto mesmo. Nosso pais conseguiu ser líder mundial de algo alem de esporte. Quem iria competir, os ingleses? Os americanos? Não senhor. Os brasileiros ganharam! E por muito. Comecei a contar sobre nossos estudantes, nossos trabalhadores de metro em São Paulo, os professores, banqueiros, tudo que lembrava. Expliquei minha teoria de que a greve era um dos indicadores, senão o maior indicador de uma democracia saudável. Já bem pra lá de sóbrio apontava com meu copo de cerveja, para os que acusava de revolucionários inferiores.
Admito agora, que fui um pouco hipócrita, pois somente defendo o Brasil para estrangeiros, e nem sempre. E por esta pequena inconsistência em meu argumento falei demais. Foi quando comecei a pontificar sobre como ao Brasil restava a esperança de se concertar que o francês, Michel, já puto com minhas exclamações grandiosas, retrucou:
- e alguma delas funcionou?
Só o francês mesmo. Rei das greves poderia me mandar uma destas. E eu sei lá se funcionaram. Como um bom carioca sigo somente as primeiras dez paginas do Globo. Duas semanas de qualquer noticia já é demais. Infelizmente Michel não é carioca. Se não dava para enrolar. Mas ele com estatísticas e tudo menos gráficos contou como os alunos não conseguiram manter a independência das universidades, os trabalhadores do metro ainda não ganham lucros da empresa, etc. Não acreditei. Tentei debater mas fui massacrado por minha falta de fatos. Mas só quando ele mudou o assunto que Michele revelou suas reais intenções:
- A Franca, por outro lado, tem greves serias. Nossos estudantes são informados. Quando fazem uma greve, o pais presta atenção e as coisas mudam. As ruas pegam fogo se os políticos tentarem fazer algo injusto. E o povo os apóia. Isto sim é uma greve. Isto sim é um pais serio.
O americano veio com sua conversa do sindicato de escritores, o inglês como sempre apoiou o americano. E eu, tive que ficar calado enquanto meu Brasil foi logo esquecido na conversa das greves. Os estrangeiros debatiam cada vez mais. Com seus conhecimentos extensivos não largavam o assunto. Depois de um tempo comecei a pensar: por que as coisas não funcionam aqui? Mas já estava ficando cansado. Me retirei para casa onde minha novela me esperava. Afinal não podia demorar. No próximo dia a previsão era de sol, e eu tinha uma bela praia a pegar.
Pedro Widmar
Enviado por Pedro Widmar em 13/11/2007
Código do texto: T735825

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Sobre o autor
Pedro Widmar
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
30 textos (767 leituras)
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