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LÍNGUA AFIADA

Hoje acordei com a língua afiada. Aliás, hoje não, ontem. Mas só hoje pude perceber o tamanho de alguns estragos que uma língua bem orquestrada pode cometer. Não que eu tenha feito mal a alguém, muito pelo contrário. Mas a gente sempre pensa que pode ter dito alguma coisa que tenha deixado o interlocutor meio, digamos, “borocoxô”. Foi em uma conversa trivial, informal e totalmente descomprometida que percebi o quanto minha capacidade de argumentação e reflexão desenvolveu-se de um ano pra cá.  E digo isso, juro, esboçando um sorrisão que vai de orelha a orelha... Como é bom perceber o próprio amadurecimento! Gostaria que mais e mais pessoas tivessem a mesma oportunidade que estou tendo. Enfim...

Mas falemos da língua afiada e seus pseudo-estragos. Quando essa coisa que chamam de destino – e que eu teimo em acreditar que se trata apenas de energia convergindo para um mesmo interesse – coloca duas pessoas face to face, quando isso acontece, sinto que algo de muito bom está por vir. Primeiro porque as pessoas se atraem, e nisso eu acredito: as pessoas se atraem pelos seus propósitos. Segundo porque é sempre uma via de mão dupla: há uma troca, onde cada uma doa um pouco de si para a outra, e com isso elas constroem algo que seja só delas, algo em comum. E terceiro porque, depois de um contato desse grau, a pessoa nunca mais será a mesma: instaurou-se ali uma mudança de status quo daquela determinada idéia, percepção, que estão discutindo.

A cada vez que isso acontece comigo – e posso dizer que tem acontecido com certa freqüência – a cada vez que acontece tenho a nítida sensação de estar vivendo. Aí volto nas minhas questões filosófico-existencialistas e percebo que, pra me perceber, me saber, tenho sempre que perceber e saber o outro. Não tem jeito, ninguém nasce se sabendo, se conhecendo. As pessoas vão aprendendo a “ser” durante a vida, em alguns momentos elas se permitem estar, mas nunca deixam de ser. E ser é condição sine qua non a qualquer SER humano.

Sei que muitas das minhas sacadas serão novidades apenas para mim. Alguns leitores ao verem o que escrevi aqui dirão: putz, mas só agora ela percebeu que isso aí é o que acontece na vida? Pois é... só agora. Mas o mais gostoso e engraçado disso tudo é que cheguei até aqui com minhas próprias pernas. Claro que esbarrei com muita gente nessa caminhada toda, e todo mundo que passou por mim deixou um pouquinho de si e levou um pouquinho de mim, mas a caminhada mesmo eu fiz só. Aliás, (como estou cheia dos “aliás” hoje), aliás... estou chegando a conclusão de que as pessoas sempre estão e estarão sozinhas. Mesmo que esteja rodeada de pessoas a sua vida toda, quando a cabeça vai para o travesseiro, ela vai sozinha. Quando o pensamento acomete, é só na cabeça do indivíduo que ele divaga... E aí entra mais uma questão que anda me rodeando nos últimos tempos: o amor-próprio. Qual será o tamanho que devemos dar a ele? Tem que ser o maior de todos? Ou apenas um amorzinho que seja capaz de suprir nossas necessidades mais urgentes? Não sei, essa dúvida ainda me rodeia... Por isso gosto tanto do texto da Clarice intitulado “Das vantagens de ser bobo”. Ele fala exatamente dessa nossa condição quase que necessária em ser bobo (não confundir bobo com burro), e distribuir amor para todos os que nos rodeiam. Será que um bobo tem em altas contas o seu amor-próprio? Ainda não sei... Mas descobrirei nas cenas do próximo capítulo.


São Paulo, 16 de Novembro de 2007.
Bruna Pattiê
Enviado por Bruna Pattiê em 16/11/2007
Código do texto: T739408

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Sobre a autora
Bruna Pattiê
São Paulo - São Paulo - Brasil, 35 anos
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Bruna Pattiê