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Estudos sobre a desigualdade social no Brasil II- A história de F.D



                                                               Leonardo Barros Soares

Visita domiciliar à casa de uma senhora, conhecida como Dona M., que nos procurou por que seu neto, F.D, “não tem jeito”, mas “precisa de ajuda”. O menino, que tem doze anos, já fora expulso várias vezes dos colégios do bairro e fugira outras tantas de um colégio interno. Ele “não quer saber de estudar”, passas os dias perambulando pelas ruas do centro da cidade a pedir dinheiro e freqüentemente apresenta sinais de embriaguez e uso de drogas ilícitas. Dona M. não compreende porque o irmão de F.D, apenas um ano mais novo que este, é tão diferente do rapaz. Ele é “estudioso”, “não dá trabalho” e não se “envolve com más companhias”. Porque então F.D é assim? “Faço tudo por ele. Não entendo. Talvez seja mesmo o destino dele ser errado”.

É, talvez...

Essas coisas me são ditas numa habitação composta por dois cômodos de tamanho exíguo que abrigam  mais de sete pessoas. Chegamos quinze minutos atrasados e F.D, que havia nos esperado até então, já partira. Onde ele estará? “Certamente no barraco da mãe dele”. A Senhora pode me levar até lá? “só se o Dr. Quiser. Mas lá é perigoso”. Não tem problema, explico, é importante conhecer os ambientes pelos quais F.D transita e possivelmente construiu alguma coisa que possa chamar de lar. Respiro fundo, por que não há medo capaz de superar minha indignação.

Chegamos à beira da praia, alguns poucos quilômetros distante de casa de Dona M. e encontramos F.D a conversar com alguns rapazes mais velhos. Um deles segura uma enorme barra de ferro que me lembra uma espada. Sentado numa pedra adjacente a um barraco de papelão e lona ele não olha para mim, esboça um sorriso de constrangimento. Mal sabe ele que talvez eu esteja tão constrangido quanto ele. Não sei o que dizer. Dona M. diz “o moço quer falar contigo”. Entramos no barraco de sua mãe.

Num espaço de aproximadamente 24 m² se encontram somente um amontoado retorcido de ferro e espuma que eles chamam de “sofá” e, estirado no chão, um colchão imundo sob o qual se encontra uma figura esquelética vestida em trapos. Sua aparência é horrível, seu rosto está contraído, como se estivesse tendo pesadelos tenebrosos, e seu corpo, coberto de piolhos, está com uma rigidez cadavérica. É uma das filhas de Dona M., a mãe de F.D. Ele a chuta com um pé, chamando-a, mas ela continua imóvel em seu sono carregado. Como que para se desculpar, Dona M. explica que “ela deve ter passado a noite usando pedra”.

O que eu vou dizer? O cheiro é insuportável, o calor também, e a situação é esdrúxula. Quem sabe a gente não encontra um “projeto” para ele? Quem saberá as verdadeiras razões pelas quais ele disse que queria ajuda? Um gosto amargo de impotência. Mas tentaremos.

Tenho a oportunidade de trocar algumas palavras com ele sem a presença de sua avó. Meninas? “comi muitas já”. Drogas? “não uso mais o mesclado  não cara, agora só fumo cigarro mesmo”. Um detalhe. “não posso ir até aquela parte do bairro, pois estou marcado”. Seguimos.

Saímos de carro e fomos até os diversos “projetos” sociais do bairro. No caminho ele deixa escapar um pouco de sua infância soterrada por tantas tragédias, coloca a cabeça para fora da janela e ri. Há sempre um impedimento- ele é jovem demais, não freqüenta a escola, usa drogas. Estou a ponto de gritar, mas não há muito que eu possa fazer. Será que ele irá com sua avó tentar um tratamento para a dependência química num CAPS? E a escola, será que ainda significa alguma coisa para ele? O que eu consegui fazer por ele? Talvez somente promessas. Ao vê-lo sair do carro de forma desembaraçada e sem olhar para trás penso “aí vai um homem que sobrevive”. Respiro fundo. Pensamentos me invadem com uma força absoluta, um gosto de sangue na boca, uma certeza de que o mundo vai dar voltas, os dias e noites passarão, e talvez F.D se vá para nunca mais voltar.

Passei tempos sem vê-lo até encontrá-lo numa esquina próximo à sua casa. Parecia estar mais velho ainda. As pernas feridas. Não olha para mim. Depois já não o vejo mais, ele fugiu quando disse que voltaria para conversar com ele. Onde estará agora F.D?

Penso nas palavras de Dona M.: “o problema é dele mesmo”. Em um mundo de miséria e opressão, cada um luta com as armas que pode.

Onde estão minhas leituras de psicologia do desenvolvimento humano? É impressionante constatar o quão elitistas são nossos referenciais acadêmicos. As pessoas pobres ainda são, para nós da Psicologia, nossa alteridade radical, o lado escuro da lua. Somos profundamente ignorantes no tocante às formas de resistência que as pessoas em situação de pobreza severa criam cotidianamente, seus usos da linguagem, seus modos de vestir, amar, comer, habitar, e só as tratamos de forma caricata e debochada. Nossa psicopatologia tem absurdas pretensões de universalidade e simplesmente ignora as condições massacrantes às quais estão submetidas a maioria da população brasileira que vive em situação de miséria.

Confesso que não estava preparado para encontrar seres humanos com a infância “desrealizada”, corpos marcados pela fome, abuso, drogas, miséria, e opressão. Estou aprendendo, a cada dia em que passo no Pirambu, a rever meus caminhos que pareciam tão bem traçados. Lancei-me novamente na vertigem de pensar, de criar a partir de poucos materiais, de fazer ouro onde só parece haver pedra. E, depois, o de fazer um trabalho de filigrana, de ourives, que é delicado e requer paciência, mas cujo resultado é esplendoroso. Trabalhar para mudar alguma coisa. Buscar um ar mais puro, dias melhores, quem sabe.

Um trabalho difícil, é verdade. Mas há um grito imperioso em mim que me impele a começar. Estou começando, aos poucos.

E você?
 
Leonardo Soares
Enviado por Leonardo Soares em 16/11/2007
Código do texto: T739621
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Sobre o autor
Leonardo Soares
Fortaleza - Ceará - Brasil, 32 anos
139 textos (41782 leituras)
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Leonardo Soares