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Luzes Oscilantes

     Pobre dessa menina que quer ser igual Clarice Lispector. Pobre, estúpida, incapaz menina. Acorda com algumas lágrimas nos olhos louros, coisa de pesadelos sobre a vida real. Não se sabe o limite de um e de outro. Vista embaçada, esfrega os olhos e põe-se a pensar.
     O amor, que é o amor? Sofri muito por ele, é verdade, e então tenho a visão naturalista de que o amor é um instinto, reles impulso elétrico que parte de alguma região (não sei como conseguem designar regiões naquela massa horrenda) do cerebelo. Instinto de preservação da espécie. Assim amor e sexo são uma coisa só, amor foi uma coisa que os trovadores inventaram para poderem praticar suas pedofilias com mais facilidade. Mas algo me diz que o amor é algo mais profundo, por existir também o amor de pai, de mãe, de irmão e também de amigos, como algo mais raro. Estas últimas espécies do amor são concretas, palpáveis; quando existem, é claro. Estes gêneros do amor são humanos, têm a cara da própria vida: têm momentos fracos, momentos de tédio e indiferença, momentos de contradição e aqueles momentos nos quais se tem a certeza absoluta e completa de que ele é mais real do que as coisas que vemos, tocamos e sentimos. Esse amor não morre; tenho fé nele, pois o vivo. Ele existe, ao menos pra mim.
     Que é o amor erótico, sensual? É uma tentativa totalmente absurda do amor citado acima, absurda por ser entre pessoas estranhas e que nunca tiveram vínculo algum, não obstante querem os ter mais fortes do que os que já têm. Esse amor morre quando o organismo se acostuma com os hormônios liberados, com a serotonina, dopamina e adrenalina. Um orgasmo, às vezes um beijo ou uma palavra e é o fim. Parte-se pra outra. Nomes vêm a minha cabeça, nomes e mais nomes de pessoas as mais diversas. E o empirismo confirma minha tese, agora lei, como as de Newton. Amor com conotação sexual, na verdade nunca houve. Só houve mesmo a conotação sexual. Rita Lee separou muito bem uma coisa da outra na sua música “Amor e Sexo”. São opostos, mais ou menos irmãos que brigam. Talvez vieram da mesma mãe, mas gêmeos é que não são. Bocejos...
     Rádio ligado, música eletrônica tocando. Nossa, música eletrônica de manhã ninguém merece...!
     Rádio desligado.
     Luz clara doendo os olhos, vidros abertos para a perspectiva amarela do solzinho matinal, esse que faz bem para os cachorros e os idosos. Não encontro o ponto de fuga dessa paisagem. Sento ao pé da cama, deito torta na cama, sem forças no corpo e possuída pelos meus próprios pensamentos, que ciumentos de mim, me querem dominar por inteiro. Não há espaço para movimentos físicos nessa claustrofobia abstrata.
     Então, já que amor e sexo são diferentes, deveria aceitar namorar com aquele garoto ricasso. Casar com ele, ter filhos com ele. “Pai pobre é destino, namorado pobre é burrice”, diz a voz de mamãe no meu coração, presente, me abraçando e me cobrindo contra o frio daquela cama, daquele quarto. Gelo quebrado pelo cobertorzinho quente de mamãe. Sim, e quando eu estivesse garantida na vida, amantes e amantes e mais amantes. Mas se eu quero ter amantes, por que namorar com aquele paspalho?! Ah, sim, porque ele é rico. Mas meu padrão estético, quase como um dogma, não me permite olhar pra ele e ver algum atrativo. Meu deus, que bosta! Não quero trair, não quero namorar, não quero casar nem ter filhos e virar uma porca gorda amamentando numa granja. Quero dinheiro, dinheiro e dinheiro. E a culpa é minha, é sua, é do presidente Bush e do Fidel Castro, tadinho, morrendo agora e nem sabe que o caluniam em pensamentos alheios. Ou sabe, ditadores sempre são caluniados, esses meninos que não gostam de emprestar seus brinquedos pros outros coleguinhas... Tá, que me importam os ditadores! O que eu quero decidir agora, hoje, é o dilema de Fernando. Sim ou não, merda!
     Sei que não vou achar um rockstar gatíssimo pra casar comigo, sei que não vou ser feliz com ninguém nesse mundo. Mas...Fernando?! Às vezes sinto nojo de mim, gostar de alguém pelo dinheiro. É, isso é prostituição. E a mesma mãe que me cobriu agora a pouco, acho que não gostaria disso. Sim, pro diabo com Fernando, riquinho idiota! Que arrume uma outra prostituta, quero dizer, que arrume uma prostituta por aí, por que eu não vou ser brinquedo de nenhum menino mimado. Pro diabo com Fernando, e obrigada mamãe! Mamãe dormia, e quem cobria seus cabelos tingidos de anjo eram os remedinhos pra dormir... Azuis cor do céu.
     Ano que vem vou arrumar um emprego, vou pagar minha faculdade, mamãe me dá um carro, luto, compro apartamento e vivo com alguma amiga minha. Amigas que amam de verdade, amigas, papai, mamãe e irmãos. Vou me casar com uma amiga minha, que assim o amor é verdadeiro e sem interesse. Teremos beijos, abraços, dormiremos juntas e risos, e lágrimas juntas. Sem ciúmes e sem traição. Sem homens. Ah, que mundo, que mundo belo e rosa de mulheres atenienses andando pra lá e pra cá, de carro e trabalho, e apartamento! Mulheres, mulheres, mulheres...
     Suspiros alegres e despreocupados, risos pelo ar amarelo matinal. Beijo de bom dia da mamãe, e Clarice Lispector na estante. “Os Laços de Família:
     A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente no táxi que as levaria à Estação...”
Luna Steinherz
Enviado por Luna Steinherz em 17/11/2007
Reeditado em 17/11/2007
Código do texto: T740914

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Sobre a autora
Luna Steinherz
São Paulo - São Paulo - Brasil, 28 anos
424 textos (23973 leituras)
3 e-livros (327 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 22/08/17 04:43)
Luna Steinherz