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ECOS DA PARADA

Tinha por costume não ir à Parada Gay do Rio de tanto que tantos (em sua maioria gays) falavam mal dela. Muita confusão, muita baixaria, medo de roubo, de assédio, de assalto, de porrada de tudo que atribuem aos gays quando se reúnem em grupos maiores que 1.

Tinha uma namorada que não era assumida, ainda no armário com a porta entreaberta só pra ver o movimento e, quem sabe entrar um ar. Como já disse alguém: “o armário estava cheio!”

Naquele dia, ficaria em casa com preguiça. Mas eis que fez um dia maravilhoso de sol, e a “Cow Parade” também estava nas ruas. Vacas e veados... Talvez tenha sido isso, uma combinação animal e extremamente pacífica que a fez sair.  Afinal, vacas são lindas e gays ou, como queiram,“veados” são no mínimo,  interessantes. Como que essa altura do campeonato, poderia querer fugir da violência, fugir da  “gay parade”, se ela era alguém que  andava pelas noites, andava de ônibus, enfim vivia no Rio? Como logo naquele domingo de sol, sair por aí só pra tirar fotinhas de ingênuas vaquinhas?!

Foi pra Zona Sul, não pra ver a parada, mas para ver as vacas. Hum... Ta bom ... hã-hã.
Foi de biquíni, porque se esquentasse demais, daria um mergulho. Seu biquíni era camuflado, seria uma amostra do seu inconsciente sempre em guerra?  Ou simplesmente o fascínio que dizem por aí, as mulheres têm por farda? Seria isso a lei do fetiche, quem não gosta de ver adora usar pra ser olhado? Hum, isso psicológico demais, deixemos pra lá ....

Caminhou pela parada ainda em armação.  Com carros vazios, o som desligado, o que chamava a sua atenção eram as laterais dos carros. Era a parte politizada da “gay parade”. As  laterais negras, com letras brancas chamando a atenção para a falta de posicionamento do Senado perante a causa. Os políticos precisam se posicionar condignamente diante deste fato, já que os seus erros, pós-pizza, são aparentemente perdoados a cada eleição...

Saiu da parada, caminhou até a areia, tomou sol e viu uma cena inusitada e inesquecível: Um menino vinha com a mãe. Ele tomava um sorvete, parecia de milho-verde... O sorvete escapole da mão do garoto e cai, misteriosamente, com o palito cravado na areia! A mãe pega o sorvete e como que pra certificar-se de que estava realmente isento de qualquer grão de areia, dá uma chupada e entrega ao menino. Ela reflete a respeito do fato: Seriam os nossos relacionamentos uma cena parecida? Um sorvete cair com o palito na areia deve ser uma possibilidade dentre milhões. Coisa tão rara que não acreditamos ser possível. Não deixamos de chupar o sorvete, mas não andamos sempre pela areia, o que aumentaria nossas chances de sucesso para quando o nosso soverte escapulisse das nossas mãos...  Claro que há dias que não ‘dá praia’ e fica quase impossível se caminhar na areia. Há dias que não faz calor e sequer pensamos em sorvete...
       
Claro que não é todo dia que pensamos em ter alguém, principalmente quando não há ninguém por perto. Mas existem as vezes em que nos fechamos no medo de que “a pessoa” apareça. Às vezes “a pessoa” aparece e a gente coloca um monte defeitos, muitos deles sem justificativas, outras vezes tentamos pouco, porque queremos que todo o sucesso da relação venha pronto para que só desfrutemos e ponto; mas o sucesso da relação não é tanto nossa  responsabilidade... e o fracasso, é sempre culpa do outro...
           
A parada ia se avolumando, os sons iam aparecendo, de um carro pro outro as tribos mudavam de cara, de estilos... Turistas, filmadoras, câmeras, muitas câmeras. Gays adoram fotos! Héteros não? Grávidas, crianças, idosos, garçons, seguranças-de-ternos-pretos na praia. Para quem saiu de casa pra tirar umas fotos com as vacas de fibra de vidro da Cow Parade, isso tudo era uma overdose de movimento, cores estilos, overdose de vidaaaaaaa!

Sim, a violência existe e nós a tememos. Preconceito e discriminação são fatos e nós temos que sobreviver a isso, conviver com isso, lutar contra isso. O descaso das autoridades sejam elas públicas, privadas, pessoais, amigas, inimigas, aliadas, a favor ou “do contra”, é uma realidade e a “Gay Parade” pra uns, “Parada do Orgulho”, “Parada GLBTT” para outros estava ali, por isso! E pessoas gays ou não paravam as drags para uma fotinha...

Dá pra fazer poesia dizendo que o gay enfrenta a diversidade com humor, luta usando a cor. Sim são alegres, mas não foi assim desde sempre... E daí, o importante é o que acontece no presente, nas cabeças fica  o que foi visto e sentido! Cidade Maravilhosa onde há pessoas que por “simpatizar”, por amar permitiram que fosse possível sairmos às ruas disfarçadamente ou não. Aqueles que foram à praia e viram a Parada, dançaram com a gente, leram as mensagens dos carros, ouviram os nomes dos senadores dos quais depende a liberação da Criminalização da Homofobia. Gente não-gay, ambulantes, vendedores, divulgadores, PESSOAS que NÃO discriminam, que ACEITAM, que amam e por amar percebem que ser gay é um detalhe na vida de tantos profissionais, cidadãos que pagam impostos e descontam INSS, pessoas, gente!

Minha homenagem às pessoas desta cidade que fazem seus programas, participam, vivem suas vidas, deixam viver e conviver. Isso é diversidade! Um exemplo para os gays seguirem  e não dividirem o mundo entre gays e héteros, os programas entre “para homem” e “para mulher”.  Vamos lembrar que no meio de tanta festa existe uma luta e que ninguém é obrigado a lutar. A exposição teoricamente não é obrigatória, mas a igualdade é!
Não vamos nos fazer de vítimas e cometer o abuso que cometem contra a gente todos os dias!  A hipocrisia que alardeamos vela o nosso sono e também caminha ao nosso lado...
Na nossa vida pessoal, muitas vezes não damos chance para as coisas acontecerem, fazemos um julgamento desses assim: “é pintosa”, “bebe muito”, “tem filhos”, “não gosta de sair”, “sai demais”, “caminhoneira”, “é fumante”, mas se isso não nos agredir, qual é o problema? Vamos respeitar do jeitinho que a gente exige respeito. Dá pra combinar assim?

Rio, 18/10/2007

Deusa Urbana
Enviado por Deusa Urbana em 17/11/2007
Reeditado em 02/10/2017
Código do texto: T741096
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Deusa Urbana
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